1964 em RONDÔNIA (I) – COLUNAS (RE)PUBLICADAS

Lúcio Albuquerque (Consultoria Abnael Machado de Lima)

Publicada em 31.3.14

Republicada em 29.11.25

Longe de tudo, Porto Velho também viveu 31 de março

Porto Velho e Guajará-Mirim, os dois únicos municípios de Rondônia, tinham em torno de 80 mil habitantes em 1964, sendo possível que a população já fosse um pouco maior.
Havia só um juiz e um promotor para todo o Território, isso quando tinha. A 2ª instância era em Brasília onde os recursos daqui ficavam anos nas gavetas do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios. Em Porto Velho só uma emissora de rádio, a Caiari, mas poucas famílias tinham um aparelho de rádio, em redor dos quais, à noite, amigos se reuniam para ouvir a Voz do Brasil, por onde se ficava sabendo das novidades – como em 1943 quando foi lido o decreto de criação do Território do Guaporé, juntando partes dos estados do Amazonas e de Mato Grosso, ou quando acontecia troca de governadores, o que era coisa comum, fato imediatamente festejado com foguetes pelos adversários de quem estava no poder.
Nos Correios, o funcionário mais requisitado era o telegrafista da agência dos Correios era muito assediado por saber das notícias antes de todos. Poucos moradores, como o Sr. Alcedo Marrocos, tinham um equipamento de rádio emissão sendo que um desses equipamentos era instalado no quartel da 3ª Companhia de Fronteira – atual 17ª BIS. Os jornais locais eram o Alto Madeira e O Guaporé. A “emissora” mais rápida era a rádio cipó.
Os aviões de carreira pousavam no campo do Caiari – região que vai do ginásio Cláudio Coutinho até ao CPA do Governo, e isso era uma atração enorme, para ver quem saía ou chegava, e para a garotada pegar poeira, o vento levantado pelas hélices. Outra forma de chegar era pelos navios – Lobo D’Almada, Augusto Montenegro e Leopoldo Peres, na rota Belém/Manaus/Porto Velho. Ou o sair/chegar dos trens da Madeira-Mamoré, na linha até Guajará-Mirim. A cidade não tinha ainda telefonia interurbana.
A rodovia era a BR-29, primeira designação da atual BR-364, mas as condições da estrada eram terríveis, o que incluía falta total de estrutura, sem pontos de apoio, uma enorme aventura viajar nela, aberta em 1960.


Para ase saber das novidades a pedida era ir ao restaurante Café Santos, na Sete de Setembro com a Prudente de Moraes. Outros locais também apreciados eram os clíperes, espécies de botecos no meio da Sete de Setembro, e o restaurante Arara. Luz elétrica ia até zero hora, quando começava a funcionar a boate Céu, com seu salão em baixo e os quartos no andar superior, em frente ao cemitério dos Inocentes.
A economia tinha como base o sistema extrativismo vegetal, mas o dinheiro que circulava era oriundo do pagamento dos funcionários federais, com destaque para os ferroviários da EFMM. Àquela altura outro produto se firmava na economia local, agtraindo homens e mulheres especialmente do Maranhão, a garimpagem manual de cassiterita, descoberta por acaso nas terras do seringalista Joaquim Pereira da Rocha.
Porto Velho tinha duas agências bancárias, a do BB e a do Banco da Borracha (atual Basa). Seus funcionários formavam uma espécie de classe privilegiada e tinham até um clube, o Bancrevea (Carlos Gomes com a Campos Sales), onde as mulheres iam às festas de longo e os homens de passeio completo. Nos finais das tardes a pedida era ficar no bar do Porto Velho Hotel, conversando com o mundo intelectual.
Aos domingos as disputas de futebol eram no campo do Ypiranga ou no da 3ª Companhia, quando as torcidas participavam com o mesmo fervor por suas preferências e por seus atletas principais.
Apesar de ser uma cidade pequena, Porto Velho fervilhava quando o assunto era política. A disputa ficava entre cutubas, partidários do coronel Aluízio Ferreira e os peles-curtas liderados pelo médico Renato Medeiros, que em 1962 foi eleito deputado federal.
Quando 1964 chegou havia sindicatos atuantes e a União dos Estudantes, que realizava concursos de rainha, mandava delegações para participar de congressos em outras cidades, mantinha um jornal devezemquandário. Naquele ano o presidente da entidade era o estudante João Lobo que em entrevista ao projeto Testemunha da História lembrou ter ido com uma delegação ao Comício das Reformas de 13 de março de 1964.
No Colégio Carmela Dutra um fato interessante: muitos dos professores eram bancários ou militares da 3ª Cia. Lógico que eles mantinham um relacionamento formal, mas politicamente eram inimigos, enquanto a diretora, a professora Marise Castiel, tentava contornar para evitar que essa divisão se refletisse de forma negativa no processo educacional, lembrou o professor e historiador Abnael Machado de Lima, membro fundador da Acler.
Quando a cidade adormeceu no dia 30 de março, ninguém esperava que o dia seguinte, uma terça-feira, seria o divisor das águas.


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