Vivendo sem manha na Alemanha
Por acaso falou com Beethoven
Por Geraldo Gabliel

LÍLIE REICHARDT…
Turnseestraße 59, 79102
Freiburg im Breisgau, Germany
DEUTCHLAND
00:59h – 25 de julho de 2025. Ribeirão Preto – SP
Algo curioso que Geh Latinus vivenciou em São Leopoldo – o berço da colonização alemã no Brasil – há alguns anos, enquanto oferecia a Revista Nosso Amiguinho de porta em porta aos “meninos da escola”, uma placa, diante de uma casa, em que dizia: Cuidado! Pastor Alemão… Na dúvida se se tratava de um religioso tedesco ou um animal feroz, Latinus preferiu manter um pé atrás. E mais, a campainha estava bem posicionada na porta da casa, bem fora do alcance da mão do visitante, após as grades do muro da residência alemã.
Pois é! Isso me lembra, por coincidência, que em 25 de julho de 1824, um navio com 39 imigrantes alemães chegou às margens do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, onde hoje está localizada a cidade de São Leopoldo. Esse momento marca o início da imigração alemã no Brasil. Os documentos da antiga Hospedaria do Brás, prédio que atualmente abriga o Museu da Imigração, reúnem mais de 25 mil registros de pessoas de origem alemã, que, ao lado de tantos outros povos, ajudaram a construir a diversidade cultural brasileira. Dentre tais pessoas, Lílie – descendente de tais imigrantes – é quem nos manda algumas curiosidades lá de Freiburg, na Alemanha:
O Brasil encontra a Alemanha (e se espanta)
– Se há um choque cultural que pode deixar um brasileiro perplexo, é o encontro com a Alemanha. Enquanto no Brasil a vida flui no ritmo do “deixa a vida me levar”, os alemães marcham ao som de “Ordnung muss sein!” (“A ordem deve ser mantida!”). E não é exagero dizer que, para um brasileiro, o primeiro contato com essa terra de regras inquebráveis pode ser como tropeçar em um manual de instruções escrito em alemão arcaico.
Pontualidade? No Brasil, marcar algo para as 20h significa que os primeiros chegam às 20h30, e a festa só esquenta lá pelas 22h. Na Alemanha, chegar atrasado é pecado capital. Se o trem sai às 9h03, ele parte às 9h03 – não 9h04. Um brasileiro que marca um café com um alemão e aparece 15 minutos tarde pode ser recebido com um olhar glacial e um “Sie sind zu spät” (“Você está atrasado”), dito com a mesma gravidade de um diagnóstico médico terminal.
E não adianta tentar o “jeitinho brasileiro” – enquanto no Brasil um sorriso e um “Foi mal, tava no trânsito” resolvem quase tudo, na Alemanha, “explicações não colam”. O relógio é lei.
– Embora eu tenha herdado a natureza do alemão, fui criada no Brasil, vivia em Palotina, no Paraná, com os nossos costumes brasileiros:
“Domingo no Brasil é dia de churrasco, música alta e crianças correndo. Na Alemanha? “É dia de silêncio absoluto”. Cortar grama, lavar roupa ou fazer barulho após as 22h pode render multas e vizinhos furiosos batendo na porta. Um brasileiro, acostumado ao caos sonoro das grandes cidades, pode achar que entrou em uma zona de exclusão acústica.”
E se no Brasil estacionar em qualquer lugar é quase um esporte nacional, na Alemanha, “até a bicicleta tem vaga marcada”. Desrespeitar o espaço alheio é garantia de bronca – e, possivelmente, de uma multa surpresa.
Ai no Brasil, todo mundo vira “amigo” ou “querido” em cinco minutos. Na Alemanha, chamar alguém de “du” (tu) sem permissão é como dar um tapa na cara da etiqueta. O “Sie” (senhor/senhora) é obrigatório até que o alemão diga “Wir können uns duzen” (“Podemos nos tratar por “du”). Um brasileiro, acostumado à intimidade rápida, pode passar meses sem saber se já pode relaxar – enquanto o colega alemão avalia se ele é digno de confiança.
Quando se vai às compras por aqui e por lá…
Enquanto por aqui, pega-se o carrinho, no supermercado e joga-se tudo dentro e paga. Na Alemanha, “o carrinho só sai com uma moeda de €1”, e se você não devolver direito, perde o dinheiro. As garrafas de cerveja e água têm Pfand (depósito), e quem joga no lixo perde €0,25 por unidade – um crime financeiro que muitos brasileiros cometem sem saber.
E os caixas? São máquinas de eficiência alemã em ação. Enquanto no Brasil ainda há tempo para um “Tá calor, né?”, lá o caixa escaneia os produtos na velocidade de um raio, e se você não empacotar rápido, a fila inteira solta um suspiro coletivo de exasperação.
“Será que você poderia…?” ou “Se não for incomodo…” é polidez padrão por aqui. Na Alemanha, a franqueza reina. Um chefe alemão pode dizer “Isso está errado” sem rodeios, enquanto um brasileiro ainda estaria tentando achar uma forma suave de dar o feedback.
E os palavrões? No Brasil, um “caramba” ou “putz” passa despercebido. Na Alemanha, palavrões em contextos formais são como gritar em uma biblioteca – um convite ao julgamento silencioso.
Nos brasileiros, quando dizemos “Vamos sair hoje?” o convite pode surgir às 18h, e às 20h já está todo mundo no bar. Na Alemanha, festas são marcadas com semanas de antecedência. Um convite de última hora é quase um insulto à organização nacional.
E enquanto no Carnaval brasileiro a regra é “quanto mais gente, melhor”, na Oktoberfest alemã, cada um senta no seu lugar marcado e bebe sua cerveja sem invadir o espaço alheio. Aliás, oh gente que gosta de cerveja! E em copos (tipo de chop) grandes – uns 3 litros – Geh Latinus observava os turistas alemães nas Ramblas em Barcelona – um festival de cerveja em pleno inverno europeu.
Lílie teria se esquecido do Chucrute?
– O brasileiro chega na Alemanha e pergunta: “Cadê o pão francês?” Em vez disso, encontra pães densos, cheios de grãos, que poderiam ser usados como pesos de porta. E se no Brasil um cachorro-quente vem com purê, queijo, bacon e milho, na Alemanha, o Currywurst é “apenas” salsicha com ketchup e curry – um choque para quem está acostumado ao excesso tropical.
E a água? Se você não especificar “ohne Kohlensäure” (sem gás), vai ganhar um copo de água que parece uma soda estragada.
Conclusão: Dois Mundos, Uma Aventura
No fim, o choque entre Brasil e Alemanha é uma aula de adaptação. O brasileiro aprende que nem tudo pode ser resolvido com um sorriso, e o alemão descobre que nem todo atraso é sinal de desleixo.
Mas há um ponto em comum: a cerveja. E talvez seja nela que os dois povos finalmente se entendam – mesmo que o brasileiro ache estranho tomar uma Weissbier (cerveja de trigo) com canela, e o alemão estranhe o hábito brasileiro de beber cerveja gelada com limão.
E assim, entre regras e improvisos, a convivência segue – com um pouco de caos, um pouco de ordem, e muita história para contar.
Para relaxar um pouco – brasileiros e alemães … uma música relaxante.
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https://www.queroviajarmais.com/curiosidades-da-alemanha/

