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Muita Gente Evapora no Japão – Por Geraldo Gabliel

8 minutos de leitura

Muita Gente Evapora no Japão

Enquanto macacos se banham em águas termais

Por Geraldo Gabliel

VERA PAIVA e PATRICK WOLLENS

Shibukawa, Gunma, 377-0102

伊香保町伊香保

JAPAN 

“Minha prima Vera foi por mim; até que eu mesmo vá e viva o sonho de experimentar as cores e sabores do País do Sol Nascente – Nihon ou Nippon – como os japoneses se referem ao seu próprio país – literalmente “origem do sol” ou “onde o sol nasce”. O japão fica mais lindo quando florescem as Cerejeiras (sakura). Desde o Sakura Zensen, no Hanami, a beleza efêmera da flor de cerejeira é um símbolo de renovação e beleza transitória naquele país”. Geh Latinus.

Desde o embarque em São Paulo, a Salt Lake City USA – onde se encontra com Patrick – Vera, seguindo viagem para Tóquio,  leva na bagagem mais do que roupas leves e informações turísticas: com eles, a curiosidade de quem sabe que o mundo é vasto e que o diferente não é apenas exótico — é revelador. E foi com esse espírito que Vera se viu, poucos dias depois, em meio ao vaivém silencioso de Tóquio, tentando decifrar os códigos invisíveis que regem a etiqueta social japonesa.

Sim! Por sugestão de Patrick, foram ao Shibuya – o cruzamento de pedestres mais movimentado do mundo, onde as pessoas aguardam o sinal verde para atravessar a rua, numa cena inusitada, movimentada e icônica. Durante os horários de pico, cerca de 2.500 pessoas podem atravessar o cruzamento a cada dois minutos, segundo a Japan National Tourism Organization (JNTO).

Entre Reverência, Silêncio e Fascínio

“Tudo começa com uma reverência”, escreveu ela em seu primeiro e-mail para mim, com o entusiasmo de quem descobre um novo idioma sem precisar aprender palavras. O ojigi, como ela logo aprendeu, não é apenas um gesto de cortesia — é uma coreografia social que expressa respeito, hierarquia e intenção. “A profundidade da reverência diz tudo. E eu, claro, comecei com uma reverência tímida, quase um aceno de cabeça. Mas depois de alguns dias, já estava me curvando como uma discípula zen.”

Vera, que sempre foi fã de uma boa conversa à mesa, estranhou o silêncio nos restaurantes. “Imagine comer um ramen fumegante sem dizer uma palavra. No Brasil, isso seria quase um sacrilégio gastronômico!” Mas no Japão, o silêncio é sinal de respeito — ao chef, à comida, ao momento. “E o mais curioso: ao comer macarrão, eles fazem barulho! Um ‘slurp!’ bem feito é elogio, não falta de modos.”

Ela aprendeu também que os sapatos têm fronteiras. “Entrar numa casa japonesa é como cruzar um portal: você deixa os sapatos, e com eles, parte do mundo exterior. Em ryokans, templos e até alguns restaurantes, isso é regra. E há chinelos específicos até para o banheiro. Sim, o banheiro tem seus próprios calçados. E não, não é exagero — é respeito.

Os palitos, ou hashi, são quase sagrados. Vera cometeu o erro de espetar um pedaço de peixe e foi gentilmente corrigida por uma senhora idosa. “Ela não falou nada, apenas me olhou com uma reverência mais profunda que o normal. Foi o suficiente.” Passar comida de hashi para hashi? Proibido. Apontar com eles? Nem pensar. E deixá-los verticalmente na tigela de arroz? Um gesto associado a funerais. “Cada gesto tem peso, tem história. Comer aqui é quase um ritual.”

Nos transportes públicos, Vera descobriu um Japão quase monástico. “Ninguém fala alto, ninguém atende celular. É como se todos estivessem meditando em movimento.” Ela cedeu seu assento a um senhor de idade e recebeu um sorriso discreto, quase imperceptível. “Aqui, gentileza não é espetáculo. É norma.”

O sistema de transporte, aliás, foi uma surpresa positiva. “Tudo é sinalizado, limpo e pontual. O metrô de Tóquio parece uma orquestra silenciosa. E o shinkansen, o trem-bala, é uma experiência à parte — veloz, elegante e eficiente.”

Máscaras e Tatuagens não são disfarces

O uso de máscaras, mesmo fora de pandemias, é comum. “Se alguém espirra, já está de máscara. É uma forma de proteger o outro, não a si mesmo. Isso me tocou.” E os abraços? “Esqueça. Toque físico é raro. O enryo, essa atitude de humildade e contenção, permeia tudo. Você não invade o espaço do outro — nem com palavras, nem com gestos, nem com máscaras…”

Nos elevadores, Vera notou uma coreografia silenciosa. “Os mais jovens ficam perto da porta, os mais velhos no fundo. É como se o elevador fosse um palco onde a hierarquia se manifesta sem palavras.” E as tatuagens? “Descobri que elas ainda são associadas à máfia japonesa, os yakuza. Vi uma moça do ocidente ser impedida de entrar num onsen, um banho termal, por causa de uma pequena tatuagem no ombro. Achei estranho, mas entendi. Aqui, o corpo também fala — e às vezes, grita.”

Em lojas e restaurantes, Vera se sentiu quase divina. “O cliente é tratado como kami-sama — Deus. Há uma reverência, uma dedicação, uma gentileza que beira o encantamento. Mas não é bajulação. É respeito institucionalizado.

Quem vai ao Japão durante a primavera, tem a sorte de presenciar o hanami — a contemplação das flores de cerejeira. “O Parque Ueno se reveste de sakuras. Famílias, casais, idosos — todos reunidos sob as árvores, em silêncio, como se estivessem ouvindo as flores.” O hanami não é apenas um evento — é uma celebração da efemeridade, da beleza que passa, mas marca a alma e coração da gente.

Mas nem tudo são flores de cerejeiras. Em uma conversa com um guia local, Vera ouviu falar do Jouhatsu — o fenômeno das pessoas que “evaporam” voluntariamente da sociedade japonesa. “Fiquei chocada. São pessoas que simplesmente desaparecem, rompem com suas vidas, mudam de cidade, de nome, de rosto. E tudo isso com ajuda de empresas especializadas chamadas yonige-ya.” Motivados por dívidas, fracassos, casamentos infelizes ou abuso, esses indivíduos escolhem o anonimato como forma de sobrevivência. Estima-se que até 100 mil pessoas desapareçam por ano no Japão. “É um silêncio diferente. Não o silêncio respeitoso do trem, mas o silêncio da dor não dita. O Japão também é feito disso.”

Patrick sugere à sua grandmother Vera que visitem, na Província de Nagano, o Parque do Macaco da Neve – criado em 1964 como uma instalação onde macacos silvestres japoneses possam ser observados em um ambiente sem jaulas ou gaiolas – aliás, bem confortáveis e tranquilos em sua Jacuzzi natural de águas termais – fazendo inveja aos humanos expectadores. E, em sua mente jovem, Patrick pensa: “Com essa vida de macaco, ninguém pediria para ‘evaporar’ … que evapore a água, como numa sauna, ao meu redor”.

 

 

 

Vera destaca que a isenção de visto para estadias curtas no Japão tem facilitado o turismo. “Você pode entrar sem burocracia e aproveitar cada segundo.” Além disso, há cada vez mais guias e tours em português, cardápios traduzidos e serviços pensados para brasileiros. “Me senti acolhida. E isso faz toda a diferença.” Você nem precisa recorrer ao Jouhatsu – se o fizer, será daqui pra lá… para estar sempre à sombra de uma cerejeira florida.

Comtemplando Tóquio, Kyoto e Osaka

Vera explorou Tóquio com olhos curiosos. “É uma cidade de contrastes: arranha-céus futuristas ao lado de templos milenares. Shibuya pulsa como um coração elétrico, enquanto os parques oferecem refúgio e contemplação.” Em Kyoto, ela se sentiu em outro tempo. “Templos, jardins zen, gueixas cruzando ruelas estreitas. É o Japão da alma.” Já Osaka foi pura vibração. “Culinária incrível, vida noturna animada e o imponente castelo de Osaka. Uma cidade que sabe viver.”

Ao final de sua viagem, Vera e Patrick não voltam apenas com lembranças e fotos. Regressam com uma nova lente para observar o mundo — e a si mesmos. “O Japão nos ensinou que o silêncio pode ser eloquente, que o respeito pode ser invisível, e que a etiqueta não é rigidez — é poesia social. Mas também me mostrou que há dores que se escondem atrás da cortina da perfeição.”

E eu, deste lado do mundo, li seus relatos com a reverência que se deve a quem atravessa fronteiras com o coração aberto. Vera Paiva não foi apenas turista. Foi cronista de um mundo onde cada gesto tem alma — e onde até o desaparecimento de pessoas tem nome.

伊香保温泉 E Patrick, sucinto, conclui: – “Quem não veio do macaco, não volta a ser macaco; nem eu!

(Quem sabe, em Brasília, alguém esteja desejando, hoje mesmo, o Jouhatsu – evaporar?) Essa Magnitski Act einh?!)

Em Cacoal RO – A Capital do Café.

16 de agosto de 2025.

Saiba um pouco mais sobre o Japão:

https://diaadia.jp/blog/por-que-o-japao-e-conhecido-como-a-terra-do-sol-nascente/ Acesso em 16 de agosto de 2025.

https://www.facebook.com/watch/?v=1249568279881726&rdid=VPes4LpGiXIPDkgp

https://www.facebook.com/reel/1197876442038783

https://www.facebook.com/reel/1072244291233722

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