Vejo flores em você, num cemitério feliz
Onisim Chirila
Strada Biserica Amzei, 010394
Speranța SDAC București
ROMÊNIA
Simona, uma jovem romena, de jeito tímido, recém chegada à Espanha, chamava a atenção, e movia o coração, de Latinus. Atenta ao que falavam ao seu redor – catalão, espanhol, português e, o seu romeno nativo – se movia arisca como uma tigresa selvagem lá no Mosteiro de Montserrat¹, em excursão, admirada com a arquitetura natural da montanha, e daquela catedral imponente, e toda aquela gente peregrina, em seus olhares e passos de fé diante de La Morenita – a padroeira da Catalunha.
Outro ser que representa a simpatia, a inteligência e a beleza da mulher na mesma pessoa é Alice Olimpia – olhar sereno, palavras de sabedoria e um sorriso angelical contagiante – diria eu: – “Alice: La multi ani frumosi si fericiti! – por seu aniversário esta semana (se soubesse falar em romeno).
Mas hoje, quem nos conta sobre a Romênia, sua cultura, e seu povo lindo, é um grande amigo: Onisim Chirila – um Culé² de carteirinha – que vive na Espanha. Provocativo com o Real Madrid – é torcedor do Barcelona até debaixo d´àgua. E eu, por provocação a ele, mando-lhe um recado do CR7 (enquanto estava no Real Madrid), em postagem do Face: “Sinceramente, ¡Yo no vi nadie mejor que yo. Pero te digo de corazón!” – Cristiano Ronaldo. Intrigas à parte pois, eu também sou Culé, vamos ao que nos interessa nesta crônica…
Onisim, romeno de corpo e alma, tem o hábito de enviar relatos sobre sua terra natal, a Romênia, com a precisão de um cronista e o entusiasmo de um guia turístico. Geh, sentado em sua Varanda, na Capital do Café, lê cada linha como quem atravessa continentes com os olhos, e suspira com o coração. Onisim escreve como um historiador e o afeto de quem quer compartilhar o que há de mais íntimo em sua terra natal. E que terra! A Transilvânia – com seus castelos, seus ursos-pardos e suas tradições que ora parecem familiares, ora completamente surreais.
Surpresas por palavras, flores e um Cemitério Feliz
A primeira surpresa veio com o idioma; – “A Língua Romena é latina, como o português”, escreveu Onisim. Geh arregalou os olhos – “mas não soa como espanhol ou francês… soa como um segredo.” A familiaridade linguística, no entanto, não impediu o estranhamento. Geh, como muitos outros brasileiros, achava que o idioma romeno era eslavo. Descobrir que ele está mais próximo do espanhol, do italiano e do português foi como reencontrar um primo distante em uma festa de família.
Não são apenas as raízes latinas que entrelaçam o português e o romeno — embora isso já seja um laço surpreendente. O alfabeto romeno tem 31 letras, incluindo Q, K, W e Y, usadas apenas em palavras estrangeiras. E mesmo assim, o idioma é considerado um dos mais fáceis de aprender por quem já domina o português. Geh achou isso reconfortante. “A língua é ponte, não barreira.”
E os Ciganos? – “Aqui, eles são muitos, visíveis, e têm uma história que poucos conhecem.” Geh pensou nos estereótipos que ainda rondam os ciganos no Brasil e se perguntou como seria viver em um país onde essa cultura é tão presente. Aliás, os Ciganos (ou Rom) na Romênia formam uma comunidade significativa, sendo a maior da Europa, com estimativas populacionais variando entre 1,5 a 2 milhões de pessoas, ou cerca de 3,4% da população total, de acordo com o censo de 2021.
Mas o que mais mexeu com Geh foi o tal “Cemitério Feliz”. “Já imaginou um cemitério onde cada lápide conta a história da pessoa com um poema alegre?” Onisim descreveu o Merry Cemetery, em Săpânţa, como um lugar onde a morte é celebrada com humor e cor. Geh pensou nos cemitérios brasileiros, silenciosos e cinzentos, e se perguntou como seria encarar o fim da existência com leveza. “Aqui, a gente chora. Lá, eles contam piada.”
Aos vivos, no entanto – a hospitalidade romena, parecia ter um quê de brasilidade. “Na zona rural, ninguém tranca a porta. Se você é amigo, entra sem bater.” Geh riu com ironia: “Igualzinho aqui em casa, Onisim. Só falta o café passado na hora.” Mas logo veio a diferença: o café da manhã romeno é uma lauta refeição — embutidos, queijo salgado, ovos, batata-frita, bacon e até licor caseiro no inverno. Geh, acostumado com a sua tapioca e açaí da Amazônia, achou aquilo um exagero dispensável, e até pouco saudável. (E o café? “Eles fervem o pó junto com a água e esperam abaixar. Parece feitiçaria.”)
Barracas de venda de milho verde pelas ruas… Isso sim, tem por lá, e aqui também – agradou ao Latinus que é frequentador assíduo das feiras-livres da cidade cacoalense: “Aqui também tem – pamonha, curau; caldo de cana e pastel de vento.” A conexão entre os dois países parecia, de alguma forma, se revelar nos detalhes mais simples — no produto do milho, no gosto por comida farta, e na gentileza do povo ao receber o citadino local e o turista que vem de longe.
Mas o pão… ah, o pão! Onisim contou que é o alimento mais importante para os romenos. Pode faltar tudo, menos o pão. Geh sorriu. “Aqui também. Pão é afeto em forma de farinha.” E com os longos invernos, os romenos estocam comida como quem se prepara para uma guerra. Frutas viram geleias, carnes são conservadas na gordura, verduras viram sopa. Geh achou bonito esse cuidado com o futuro. “Aqui a gente congela o feijão e chama de planejamento.”
Histórias e saudades de além-mar
E falando em história, Geh ficou boquiaberto ao descobrir que o rosto do Cristo Redentor, maior símbolo do Rio de Janeiro – Brasil, foi esculpido por um romeno: Gheorghe Leonida. “Então a Romênia está no Brasil e eu nem sabia!” escreveu de volta, maravilhado com a conexão inesperada. E ficou intrigado com a história do Castelo de Bran, lar do temido Conde Drácula. “Vlad III Dracul foi cruel, empalava seus inimigos. Virou lenda, virou vampiro.” Geh pensou nos contos de assombração que ouvia lá no interior do Paraná – onde dizem “visagem”; mas nada se comparava à fama internacional de Drácula. “Aqui, o terror é mais folclórico, menos sangrento”, escreveu de volta.
Outro dado curioso: mais da metade dos 20 milhões de romenos vive fora do país, em busca de trabalho digno e rentável. Geh refletiu sobre os brasileiros que também partem, deixando saudade e esperança. “Somos parecidos, Onisim. A gente também vai embora, mas nunca deixa de ser daqui.” – conversando em Reus, na Espanha. Disso vem, as palavras Emigrante, Imigrante e Migrante³ – que somos nós – que sabemos o que é o banzo. (Acho que Onisim vai morar em NYC).
Essa realidade de imigrante quase trouxe o técnico Mircea Lucescu para o Santos, o time de Pelé. O treinador romeno, que aprendeu português ao conviver com jogadores brasileiros no Shakhtar Donetsk, quase cruzou o oceano para comandar um dos clubes mais tradicionais do país. Geh achou curioso. “A língua e a cultura, não separam, aproximam. Pena que a distância geográfica ainda pesa.” E como não falar de Nadia Comaneci? A ginasta romena que, aos 14 anos, recebeu a primeira nota 10 da história das Olimpíadas. Geh, que mal consegue dar uma cambalhota, ficou impressionado. “Ela é tipo a Pelé da ginástica.”
Outro dado curioso, um tanto negativo, veio com a informação sobre o trânsito histórico. – “Caótico”, disse Onisim. “Carros nas calçadas, ultrapassagens perigosas, falta de sinalização.” Geh, que já enfrentou os desafios de trânsito na BR 364 – do Riozinho a Cacoal – em noite escura e chuvosa, pilotando uma moto, tentando desviar-se dos buracos com aguaceiros e faróis altos de carretas na cara – achou que talvez não fosse tão diferente assim. “Mas pelo menos aqui ninguém estaciona em cima da calçada… será?!.”
A Romênia, segundo Onisim, também é lar de uma impressionante população de ursos-pardos. Geh ficou maravilhado. “Aqui temos onças e tamanduás, mas ursos? Só em pelúcia.” – Quicá os encontre na Amazônia de Marina…? atormentados pelos incêndios, como as suas girafas, nas queimadas sazonais amazônicas…
A Romênia é o lar de sete Patrimônios Mundiais da UNESCO. Onisim listou com orgulho: as Fortalezas Dácias, o Centro Histórico de Sighisoara, o Mosteiro de Horezu, as aldeias com igrejas fortificadas da Transilvânia, as Igrejas de Madeira de Maramureș e o Delta do Danúbio. Geh, que, no momento, dá um pit stop em Rondônia, sentiu que está na hora de voltar a viajar – viver como cigano…
E então veio a parte mais surreal: “Só um filho pode se casar por ano na família” o que se apaixone primeiro. Geh releu a frase três vezes. “Como assim? E se todos se apaixonarem ao mesmo tempo?” Onisim explicou que era uma tradição antiga, quase uma regra de etiqueta familiar – talvez de origem cigana. Geh achou curioso, mas impraticável no Brasil, onde o amor é urgente e os casamentos acontecem até em série. (Guemina e Ladica, irmãs, não-gêmeas, se casaram no mesmo dia… )
Por um instante, Geh Latinus ficou em silêncio… A Romênia parecia um país de contrastes — entre o antigo e o moderno, o frio e o calor humano, o estranho e o familiar. E, de alguma forma, ele se sentia mais próximo daquele pedaço do Leste Europeu do que jamais imaginou.
Ao terminar a leitura olhou para o céu de Rondônia e sentiu que, apesar da distância, havia algo profundamente próximo entre ele e aquele país do Leste Europeu. Talvez fosse a língua, talvez o pão, talvez a intensa vontade de ignorar a morte e até, transformá-la em poesia – refletindo sobre o que realmente une dois mundos tão distantes: Brasil e Romênia.
E foi ao pensar na palavra “saudade” que Geh se emocionou. Essa dor doce, tão brasileira, encontra eco na palavra romena “durere” — dor. Não é exatamente igual, mas chega perto. “Talvez seja isso que nos une: essa vontade de sentir falta, de lembrar com carinho, de guardar ausências como quem coleciona flores.” Ou, na memória – Simonas e Alices.
E assim, com o coração cheio de “durere” e a mente cheia de histórias, Geh conclui sua crônica entre o Brasil e a Romênia, entre o que é estranho e o que é profundamente familiar em nossas vivências e despedidas.
Afinal, como escreveu Onisim, “somos latinos, mesmo que separados por oceanos e sotaques.”
Ya de camino digo: “Nadie es mejor que nosotros. ¡Se lo digo en serio, de corazón!” Geh Latinus
¹O Mosteiro de Montserrat (em catalão, Abadia de Montserrat), no município de Monistrol de Montserrat, na província de Barcelona, na Catalunha, na Espanha,
² Culés ou Culers
³Emigrante – pessoa que deixa o seu país de origem para viver noutro país; Migrante – qualquer pessoa que se desloca de um lugar para outro, seja dentro do mesmo país ou entre países diferentes, por diversas razões como busca de trabalho, melhores condições de vida, educação, ou para fugir de conflitos ou desastres e Imigrante – pessoa que entra e se estabelece num país que não é o seu país de origem, com a intenção de residir temporária ou permanentemente lá.
A certo momento, enquanto costurava esta Crônica; eu, explicando aqui para a Guemina que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo” – Isaac Newton. Para se entender porque de o bebedouro fazer ‘glouf, glouf! – não é falta de água, e sim a substituição da água pelo ar. Mas isso vale para imigrantes também… não posso estar lá e aqui ao mesmo tempo – seria onipresença, seria divino. Geh Latinus.















