Análise da tradição de violência militar na política brasileira, conectando o atentado do Riocentro, o caso Bolsonaro e a última ameaça ao STF.
por JB Reis* – A partir da proclamação da República em 1899, a história recente das instituições militares federais (Exército, Marinha e Aeronáutica) confunde-se de maneira quase inseparável com a política nacional. Tendo como ponto de partida o fim do regime militar, e chegando ao presente julgamento do ex-presidente e capitão reformado do Exército, Jair M. Bolsonaro, apontamos a “tradição” de autoritarismo e violência que acompanha os militares como uma sombra funesta, tão logo a política, com periodicidade alarmante, entra como um tsunami quarteis adentro.
A partir do final da década de 1970, apesar do enfraquecimento causado por uma significativa conjunção de fatores econômicos, políticos e sociais, a ditadura passou pela fase da agonia e de seus estertores finais.
Apesar do chamado “milagre econômico”, que – como demonstrado no livro “A conquista do Estado”, de Rene Armand Dreifuss, nada teve de milagroso – o país entrou numa grave crise econômica, marcada por recessão, hiperinflação, aumento da dívida externa e desemprego.
Esses problemas econômicos minaram o apoio da classe média e da elite empresarial ao regime autoritário.
A transição planejada e seus sabotadores internos
Tudo isso é tido como verdade por grande parte dos historiadores, porém há uma visão minoritária que defende o fim do regime como tendo sido fruto de um planejamento orquestrado por seus próprios mantenedores, isto é, os militares.
Segundo, por exemplo, o historiador Carlos Fico, que recentemente lançou o livro “Utopia autoritária brasileira” (Editora Crítica), o regime, que durou de 1964 a 1985, não terminou da noite para o dia. Ele passou por uma transição longa e calculada de maneira meticulosa por seus atores principais.
Porém, mesmo estando em ato um planejamento de “estado-maior“, a transição “lenta, gradativa e segura” teve também os seus sabotadores internos. Aqui explode literalmente a primeira bomba…
O atentado do Riocentro: um plano que fracassou
Ao que tudo indica, nem todos os militares estavam dispostos a entregar o poder tão facilmente como queria o “alto comando” político do regime.
Na noite de 30 de abril de 1981, dois anos após a lei da anistia, que sinalizava o derretimento do regime, ocorreu um dos episódios mais emblemáticos do período.
O chamado atentado do Riocentro foi resultado de uma ação terrorista planejada por setores da linha dura das Forças Armadas, especialmente do Exército e da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O objetivo foi de incriminar grupos opositores ao regime e justificar a manutenção do autoritarismo, além de retardar o processo de abertura política em curso na época.
O plano consistia em explodir bombas no Centro de Convenções do Riocentro, durante um show de música popular que reunia cerca de 20 mil pessoas em comemoração ao dia do trabalhador, 1° de maio. O atentado previa uma série de explosões para criar pânico e caos, o que levaria o público a fugir desordenadamente, causando feridos e mortes.
Entretanto, o plano fracassou devido a uma execução desastrosa: uma das bombas explodiu precocemente no carro onde era transportada, no estacionamento do local, matando instantaneamente o sargento Guilherme Pereira do Rosário e ferindo gravemente o capitão Wilson Dias Machado, os militares envolvidos na operação.
Um tiro pela culatra: as consequências do atentado
A revelação do envolvimento direto dos militares no desastroso e desastrado atentado chocou a opinião pública.
Evidenciou-se assim a existência de setores terroristas dentro do próprio regime, o que acabou por enfraquecer o governo do presidente João Figueiredo, e acelerando o processo de redemocratização no Brasil. Um tiro que saiu pela culatra…
Apesar das tentativas do Exército de encobrir os fatos por meio de investigações fraudulentas, o episódio acabou sendo um divisor de águas na luta aberta contra o regime. O estrago já estava feito. Alguns anos depois, uma outra bomba envolvendo um oficial do Exército, ainda que virtualmente, explodiu na imprensa.
Jair Bolsonaro e o plano “beco sem saída”
Esta bomba virtual não chegou a explodir. Talvez nem tenha existido realmente. Sua importância foi detonar a carreira política de uma das estrelas atuais na mídia política e judicial.
Em outubro de 1987, a revista Veja publicou uma reportagem denunciando que um capitão do Exército, Jair Bolsonaro, junto com outro militar, teria idealizado um plano chamado “Beco sem saída”.
O objetivo seria protestar contra os baixos salários dos militares por meio de pequenas explosões em unidades militares do Rio de Janeiro.
À imprensa cabe o ônus da prova
O episódio envolvendo o capitão Jair Bolsonaro e um suposto plano de atentado a bomba em 1987 é alvo de controvérsias e desinformações, mas há registros oficiais do caso.
Essas explosões seriam realizadas em banheiros e outras áreas, com a intenção de não causar feridos, buscando chamar atenção para as reivindicações da categoria.
Bolsonaro negou veementemente o envolvimento no plano e afirmou que as acusações eram falsas, alegando que a entrevista e os documentos publicados teriam sido distorcidos ou forjados.
Ao Superior Tribunal Militar, em resposta enviada em 1988, Bolsonaro negou sua participação no plano. “Nego veementemente tal plano. Como posso provar que não o conhecia? À Veja cabe o ônus da prova. Baseado em que elementos chegou à absurda conclusão de que eu tinha ou sabia de um plano?“, disse.
Bolsonaro foi considerado culpado pelos coronéis, mas acabou absolvido depois, em recurso acolhido pelos ministros do STM, por 8 votos a 4.
O militar que quer “explodir tudo, inclusive Alexandre de Moraes“
Após um interregno de 37 anos, incluídos os períodos de recolhimento dos militares aos quartéis até seu retorno aberto à política no lombo do mesmo capitão (agora reformado) e presidenciável Jair M. Bolsonaro, um outra bomba virtual, porque concretamente inexistente, deixa as digitais da radicalização político-militar das Forças Armadas em seu mecanismo falho.
Segundo reportagem do Metropoles, um homem identificado como Daniel Mourão, de 44 anos, terceiro-sargento reformado do Exército, foi preso na manhã de sábado, 30 de agosto de 2025, após ameaçar explodir uma bomba na Praça dos Três Poderes, em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília.
O suspeito estava em estado de agitação e afirmava portar explosivos numa mochila, ameaçando “explodir tudo, inclusive Alexandre de Moraes”, ministro relator do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) iniciou uma negociação com Mourão, que terminou com sua detenção após intervenção do grupo tático às 6h45.
O Esquadrão Antibombas realizou uma varredura na mochila e confirmou que não havia explosivos, apenas objetos pessoais. O Corpo de Bombeiros atestou que o suspeito apresentava um surto psicótico. Ele foi atendido no local, encaminhado a uma Unidade de Pronto Atendimento e depois levado à Delegacia de Polícia.
O fio condutor da violência: do Riocentro a Alexandre de Moraes
O incidente ocorreu poucos dias antes da fase final do julgamento no STF do chamado “núcleo 1” da suposta tentativa de golpe de Estado, que inclui Jair Bolsonaro e outros réus.
Este episódio ganhou repercussão porque simboliza a tensão política no país em meio a julgamentos históricos, com medidas de segurança extraordinárias implementadas pelo STF para evitar riscos à integridade física dos envolvidos e ao público presente.
O que aparentemente não está no radar da grande imprensa e das autoridades envolvidas é que essa ameaça de atentado a bomba vem perpetuar a visível tradição de violência que acompanha os militares radicalmente politizados.
Do Riocentro até Alexandre de Moraes são quase quarenta anos, mas não é muito difícil notar o fio condutor que liga esses atentados efetivamente realizados ou apenas planejados, que em última análise, são atentados à própria sociedade brasileira.
* JB Reis – Formado em Desenho Industrial pela UEMG, militar da reserva da Força Aérea Brasileira, onde adquiriu profunda experiência em gestão administrativa e logística no setor patrimonial. Escreve principalmente sobre vida militar, defesa, segurança e geopolítica. Sugestões de pautas: [email protected] Mais artigos em https://linktr.ee/veteranistao
