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Por Virtude, a Resiliência Africana – Por Geraldo Gabliel

9 minutos de leitura

Por Virtude, a Resiliência Africana

Do amargor da guerra ao sabor de Brasil

Por Geraldo Gabliel

MANUEL SIGÁ

(+245 956 510 374)                         

R9QQ+XX2, Bolama Nova

Bissau, Guine-Bissau

GUINÉ BISSAU – ÁFRICA

Adversidades na vida nos acontecem a todos que vivemos debaixo do céu – em nosso destino, com o seu tempo determinado, vivemos – “tempo de Guerra e tempo de Paz” (Ecles. 3:8) mas, algumas pessoas têm a malvada sorte de serem atormentadas pelos conflitos da vida com mais frequência e, intensamente. Isto tem sido, durante muito tempo, a sina de Manuel Sigá que, desde menino, lá na África Ocidental, afligido pelos confrontos tribais e a guerra civil, faziam-no responsável a levar água e comida, sob fogo cruzado, aos seus familiares e amigos combatentes no front da batalha.

Trim, trim…

Geh Latinus fala, neste instante, com Sigá. E, desta conversa, há se compor esta Crônica: – relato de fatos e, lembranças de fato, que marcam a vida do jovem pastor Manoel Sigá, especialmente, nos contando, além da sua saga de origem africana, sobre a sua vivência no Brasil quando veio estudar Teologia por aqui durante 5 anos (1991-95) na Universidade Adventista de São Paulo. Assim, um pouco diferente das crônicas anteriores desta série, teremos um personagem estrangeiro contando sobre as suas impressões e fascínios pelo nosso povo, pelo nosso país Brasil. Ah! este cronista foi companheiro de classe daquele jovem africano que nos causava espanto por tanta sabedoria, tanto nas teorias quanto nas práticas do saber.

Aprendi, ao conviver com Sigá, que resiliência não é apenas um termo que define uma virtude, mas sim, é uma experiência de vida – é algo relacional entre a pessoa e a superação das inquietudes que o destino nos impõe. Mais do que uma qualidade moral, resiliência é um atributo positivo que eleva o ser humano a um nível sobre-humano, a vencer as adversidades de sua existência – numa vida plena, equilibrada e contagiante aos seus semelhantes. Falo isso lembrando deste Setembro Amarelo: – “Se você está à beira do desespero, por favor peça ajuda” (em fita amarela: Pais de Mike Emme – um jovem de apenas 17 anos, que… no seu Mustang amarelo) – Evandro Magalhães.

Deixemos a palavra ao nosso interlocutor Manoel Sigá:

-“Nasci no interior da Guiné, onde tornei-me pastor de gado. Depois, meu pai me levou para Bissau para estudar. Eu não sabia falar português, e nem o crioulo, só falava o Balanta – dialeto étnico de minha família. No Liceu, eu teria que aprender primeiro o crioulo e, logo o português, e mais tarde aprendi o francês. Concluí o curso, e me habilitei a trabalhar numa agência de seguro e previdência social. Após 3 anos trabalhando naquele instituto decidi viajar para o Brasil e estudar Teologia – queria ser pastor de ovelhas humanas”. (Ouça o áudio anexado ao final desta Crônica)

No Brasil, desde a chegada, fiquei deslumbrado com São Paulo. O que eu via era impactante. Eu nunca tinha visto tantas maravilhas. A amizade dos brasileiros, à primeira vista… desde a chegada no Aeroporto de Congonhas em São Paulo, me impressionava: – Fui passar uns dias de férias na casa de uma família amiga. Chegando lá, na hora de dormir, gente branca pôs um colchão no chão e nele, pôs a dormir as suas crianças; e a mim, um homem preto africano, a dormir no quarto e cama das crianças. Pensei: O que está a acontecer? Um branco está a fazer isso para um preto? Na nossa mentalidade um branco nos escravizou e o branco nos colonizou… ele acabou com a nossa Terra, nosso Continente. Questionei: – Eles estão fazendo isso por causa da nossa religião? É porque eles conhecem a Deus?

Noutra ocasião, em Curitiba, o senhor João Ribeiro, já na rodoviária, tomava a minha mala, colocava sobre os ombros, e carregada a minha mala… Fiquei estupefato e, perguntava? – o que é isso homem?! um branco carregar a mala de um preto… O mundo está virado de cabeça pra baixo, de pernas pra cima. O que está a acontecer. Fiquei só a observar como as pessoas me tratavam. E pá! Será que isso é possível, estou sonhando… uma realidade em que um branco carrega a mala do preto. Se isso é religião, a religião tem poder, tem força… incrível. Não me esqueço, por todos os lugares que fui, era assim. O Robson me segurava pela mão, me levava pra cima e pra baixo… com a um a criança. O Brasil é um país acolhedor. O Brasil é um país hospitaleiro. O seu povo é acolhedor – Impressionante!

Ano 1991 – Inverno rigoroso em Porto Alegre. Conosco, na equipe de Colportores Estudantes, estava Sigá – nosso colega pretinho, nosso amigo, nosso irmão. De dia, nos agasalhávamos com uma jaqueta que nos foi preparada especialmente para aquela missão, identificada com o “Nosso Amiguinho. À noite, já no alojamento dos Bombeiros em Canoas, hibernávamos como um urso com um edredom conectado à energia elétrica – com fios elétricos mesmo. Imagina o frio vivente! – era de congelar o rabo do cusco! Todos nós sentíamos na pele o congelar da alma, mas Sigá – que havia vivido sempre acalorado lá no seu Planeta África, teve sua pele encrespada pelo frio – dermatite atópica – um tipo de alergia que é mais agressiva em peles escuras e que exige cuidados específicos. Ainda bem que a Dra. Maples nos orienta uma rotina de hidratação com manteiga de Karité e Aloe vera – produtos que, curiosamente, também fazer parte da tradição africana.

Digo eu! Viver na África é uma grande aventura. – Que o diga Sigá:

– Guiné-Bissau é um caleidoscópio humano. São mais de 20 etnias e uma paleta de línguas que vai do Crioulo ao Mandinga, é um mosaico cultural que resiste ao tempo e às adversidades. O crioulo guineense, falado por 44% da população, é língua franca entre os povos, é mais que comunicação: é identidade. Enquanto o português, oficial, é usado por apenas 11%. O restante se comunica em dialetos que carregam séculos de história.

Não se produz morango na África?

Falando em frutas, relembrando… – Foi na Grande Porto Alegre que, naquela Missão do Amiguinho, íamos ao mercado de frutas saborear as delícias que se nos ofereciam ali e, numa de nossas visitas, comprei morangos. Quando Sigá os viu, admirado perguntava – Que fruta é esta! A que sabe esta fruta? (em português lusitano). Dei-lhe alguns morangos vermelhos, suculentos, para provar. Nós, os seus amigos, ao redor de si, expectantes, presenciamos a cena mais inusitada naquele momento: – um jovem africano provando um morango pela primeira vez… ele se deliciava da fruta como um menino lambe um sorvete de tutti-frutti – também pela primeira vez.

A Guiné-Bissau é terra de caju — o maior exportador mundial — e de mulheres líderes nas ilhas de Bijagós, onde o matriarcado é regra e não exceção. É também um país que guarda cicatrizes da luta pela independência, conquistada em 1973, e que homenageia o Gana em sua bandeira, inspirada na estrela negra de África.

O arquipélago de Bolama, por sua vez, é um viveiro animal único no mundo. Desde 1995, é Reserva da Biosfera da UNESCO, sendo o principal local de reprodução da tartaruga-verde. A biodiversidade ali é tão exuberante quanto a alma do país.

Economicamente, a Guiné-Bissau é o sexto maior exportador mundial de castanha de caju. Peixe, mariscos, amendoim, semente de palma e madeira também sustentam a economia, com as licenças de pesca sendo uma fonte vital de receita.

Mas é nas ilhas Bijagós que Manuel nos convida a pousar o olhar. Um arquipélago de 88 ilhas — verdadeiras joias da coroa — reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial. Ali, a cultura matriarcal floresce: mulheres comandam a casa, a economia e até as leis. São elas que escolhem os maridos e conduzem os rituais religiosos como baloberas, sacerdotisas da espiritualidade ancestral.

Hoje, lendo alguns posts de Sigá, encontro a frase: – “Quem dá conforto é pai do céu”. – Madame Siga (esposa do pastor Sigá), e isso me fez lembrar quando a gente estudava grego na Universidade, e o Prof. Wilson Paroski nos ensinou a orar o Pai Nosso em grego – aprendemos, mas curiosos mesmos, pedíamos a Sigá que orasse o Pai Nosso em Crioulo (Kiriôl):

“Pai nosse ki sta na kél, santifkád é bu nómi. Bu kréñ k’ba-nu, k’ta bu vudá ka si na téra si na kél. Pão nosse d’dódi dia, danu ke oji. I perdoanú nos deféñ, si nun perdoámus kin nos deféndu. I n’ka kréñ k’nu kái na tentásun, ma livranú d’l’mal.”¹

– Nesse 24 de setembro, Dia da Independência da Guiné-Bissau, Manuel nos convida a olhar para além das estatísticas. A ver um país que, mesmo entre os mais pobres do mundo, é rico em alma, história e resistência. E nós, leitores, somos convidados a aceitar esse convite — com o coração aberto e a curiosidade desperta.

E eu, nem contei ao Sigá como foi a nossa semana aqui no Brasil – 7 de Setembro – Independência e Liberdade – sacrificadas em um Tribunal. Amordaçados por tribunos que rasgam a nossa Carta Magna, fazem festa na farândula pelo sacrifício de um herói do povo. Você nem Magnitsky! O que aconteceu… Evitar mais trauma além-mar.

A Guiné-Bissau não é apenas um ponto no mapa — é um universo de histórias, lutas e encantos. E através desta crônica fica marcada com um laço de  amizade entre nós pela resiliência e valentia de dois povos em busca da liberdade plena, total e irrestrita.

Abaixo a tirania!

Nha mano agora é só somar vitórias em Jesus!

Sigá: – Diverte-te no teu grande dia! Irmãos de Djolmete

P.S.: Manuel Antonio Siga é um pastor adventista na Guiné Bissau e continua numa luta permanente no Evangelho. Com sua esposa e 3 filhos menores, trabalha um projeto educacional e evangelístico. Pessoalmente, vou contribuir com algum recurso financeiro para ajudar nesta causa e missão de salvar a humanidade. Contribua você também!

¹https://www.youtube.com/watch?v=WXCt6uKiPLU&t=32s Acesso em 13 de setembro de 2025

https://www.bantumen.com/en/artigo/7-curiosidades-guine-bissau/ Acesso em 13 de setembro de 2025.

https://www.facebook.com/manuelantonio.siga.3?locale=pt_BR

 

 

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