Por que Brasil é 2º país com maior incidência de tornados — e registros estão aumentando

O tornado que deixou estragos na cidade de Giruá (RS), na última terça-feira (28/7), pode contribuir para o Brasil quebrar um recorde este ano.

Até julho, 81 tornados tinham sido registrados no país em 2026, e isso ainda antes do auge da temporada de tornados, que ocorre geralmente entre o fim do inverno e a primavera.

Com um El Niño forte tornando o clima mais propenso à formação de tempestades severas na região Sul do país, o Brasil pode quebrar o recorde de 92 tornados registrados em 2025, segundo dados da Plataforma de Registro e Observadores de Tempestades Severas (Prevots).

A iniciativa, que tem a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) entre seus parceiros, registra desde 2018 eventos de tempo severo no Brasil — como granizo, tornados, rajadas de vento e chuva intensa —, a partir do trabalho voluntário de meteorologistas.

O Brasil é o segundo país do mundo mais propenso à formação de tornados, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, segundo um estudo de 2012 realizado pelo pesquisador Daniel Henrique Candido, em sua tese de doutorado na Universidade de Campinas (Unicamp).

O que é um tornado?

O tornado é um fenômeno meteorológico caracterizado por um funil de ar em rotação muito intensa, que desce da base de uma nuvem de tempestade.

“Quando a rotação desse funil atinge a superfície, isso caracteriza um tornado, e tem a capacidade de gerar ventos extremamente intensos e causar danos muito significativos”, explica o meteorologista Ernani de Lima Nascimento, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e voluntário da Prevots.

Então, a primeira condição necessária para a formação de um tornado é haver uma tempestade severa.

“Para produzir um tornado, tem que ser uma tempestade que tenha correntes ascendentes, ou seja, um movimento para cima dentro da nuvem extremamente intenso e, se tiver condições favoráveis, como uma intensificação do vento nos primeiros 1.000 metros de altura, e se o vento mudar rapidamente de direção, isso gera um cilindro de ar na horizontal”, diz Nascimento.

“Quando esse cilindro que está na horizontal entra embaixo de uma nuvem, que é um movimento ascendente, ele sai de horizontal para vertical, e o movimento ascendente estica esse cilindro, que gira ainda mais rápido.”

Tornado registrado em Giruá, no Rio Grande do Sul, em 28 de julho de 2026
Quatro pessoas ficaram feridas e dezenas de casas foram afetadas pelo tornado que atingiu os municípios de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, no Noroeste do Rio Grande do Sul. Vento pode ter chegado a até 300 km/h

É possível prever tornados?

O pesquisador do Inpe afirma que não é possível prever com antecedência onde exatamente e o horário preciso em que um tornado vai ocorrer.

“O que é possível prever com várias horas de antecedência são condições atmosféricas favoráveis à formação de tempestades que podem produzir tornados numa determinada região”, afirma.

Para um alerta de tornado, é preciso confirmar antes a formação de uma tempestade do tipo supercélula, que é uma tempestade que gira em torno do seu próprio eixo.

“Pelo fato de ter rotação, ela gera esses movimentos ascendentes muito intensos, que é uma das condições para formar tornados”, diz Nascimento.

“Nesse caso, o máximo de antecedência que se pode dar para as cidades que estiverem no caminho daquela tempestade é de 15, 20 minutos, meia hora no máximo — temos um tempo de antecedência muito curto.”

Quais regiões do Brasil são mais propensas a tornados?

A região do Brasil mais propensa a tornados é o contorno oeste dos três Estados do Sul e também o sul do Mato Grosso, diz o pesquisador do Inpe.

“Essa é a região onde há a maior frequência desses tornados mais intensos, que podem produzir danos significativos”, diz Nascimento, alertando que isso não significa que esses fenômenos só ocorrem ali.

“Nós já tivemos tornados intensos no Estado de São Paulo, por exemplo.”

Segundo o meteorologista, o que explica a maior propensão da região à formação de tornados é o fluxo de ar que se desloca da Amazônia rumo ao Sul do país.

“A região que primeiro é visitada por esse escoamento de ar quente e úmido é justamente o oeste da região Sul. Esse fenômeno tem um nome: é chamado de jato de baixos níveis”, afirma.

Ele leva esse nome por se tratar de um movimento de ar em alta velocidade que ocorre em torno de 1.500 metros de altura, o que na meteorologia ainda é considerado um nível baixo.

Essa massa de ar quente e muito úmida, com propensão para girar em torno de si mesma, às vezes é acelerada por um ciclone tropical na costa do Uruguai, que é uma queda de pressão acentuada, acompanhada de uma frente fria.

O contraste entre o ar quente e úmido da Amazônia e o ar frio que vem da Patagônia argentina ajuda a intensificar o vento, diz o especialista.

“Quanto maior o contraste, mais o vento se intensifica com altura, e esse é um ingrediente-chave para formar essas tempestades que são rotativas.”

Moradores removem os destroços causados ​​por tornado que atingiu a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, em 8 de novembro de 2025.
Um tornado causou estragos na cidade de de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, em 8 de novembro de 2025, deixando pelos menos 750 feridos

Por que registros de tornados estão se tornando mais frequentes?

Os especialistas concordam com um fato: os registros de tornados são hoje mais frequentes devido à proliferação dos celulares com câmera, que permitem a documentação desses fenômenos. Mas eles divergem quanto ao papel das mudanças climáticas nesse maior número de registros.

Marcelo Seluchi, coordenador-geral de operações e modelagem do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), é um dos que refuta a ideia de que esses fenômenos estejam de fato mais frequentes. Para o meteorologista, eles são apenas mais registrados.

“Tornado é um fenômeno que tem uma escala muito pequena — metros, dezenas de metros — e dura muito pouco tempo. É difícil detectar tornados com imagens de satélite, inclusive com radar meteorológico”, observa.

“Então, os registros que nós temos são basicamente afirmações e fotografias. É aí que aumenta a sensação de que nós estamos tendo mais, porque, por exemplo, este da região Sul foi perfeitamente filmado”, destaca.

“Não temos dúvida nenhuma de que se tratou de um tornado, mas, antigamente, você não tinha um celular no bolso pronto para filmar ou para tirar uma foto.”

Além disso, diz Seluchi, a população hoje está muito mais espalhada e é muito maior. “Ocupamos maior território, todo mundo com celular, então hoje é difícil um tornado escapar.”

Luci Hidalgo Nunes, professora aposentada do Instituto de Geociências da Unicamp, concorda com essa avaliação.

“Tornados, assim como inundações, acontecem em qualquer lugar no mundo, não sendo exclusivo de um tipo de clima. Isso diferencia esse fenômeno, por exemplo, de furacões, que acontecem apenas em alguns locais do mundo”, diz Nunes.

“Eles são bem mais comuns do que se pensa, mas como nos últimos anos tem havido facilidades para seus registros no mundo inteiro, pode dar a impressão de que estaria ocorrendo, necessariamente, aumento desses episódios, e que eles estariam associados às mudanças climáticas — algo que aqueles que são realmente especialistas nesse tipo de fenômeno refutam.”

Um homem de boné mostra o registro de um tornado na tela de seu celular da marca BlackBerry, em Denton, Texas, em 2011
‘Ocupamos maior território, todo mundo com celular, então hoje é difícil um tornado escapar’, diz especialista do Cemaden

Já o meteorologista Francisco de Assis Diniz, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), avalia que os tornados estão mais frequentes e mais intensos nos últimos 20 anos, e que isso tem, sim, relação com as mudanças climáticas.

“A Terra está passando por um período quente, que faz com que haja aumento dos temporais, dos vendavais, das ondas de calor, e das chuvas fortes também”, diz Diniz. “Consequentemente, muitas vezes, dentro dos temporais, ocorrem essas micro explosões ou tornados.”

Ernani Nascimento, do Inpe, acredita que os dois fatores — mais celulares com câmera e mudanças climáticas — se combinam para explicar o maior número de registros de tornados nos últimos anos.

“Na primavera, principalmente, há um aumento da frequência das condições que são favoráveis a formar tempestades severas na região da tríplice fronteira, onde junta Paraguai, Brasil e Argentina, e isso se estende pelo sudoeste da região Sul”, diz Nascimento.

Segundo ele, há nessa região uma intensificação dos ventos com altura, aqueles que vão desde o chão até cerca de 6.000 metros, o que, combinado com umidade e calor, pode gerar tempestades rotativas.

“A melhor explicação que temos para isso é uma mudança da região onde tem o contraste de massas de ar, e isso é resultante de mudanças climáticas a nível global”, afirma.

“Como o planeta todo está aquecendo, a região de massa de ar quente está tomando um espaço geográfico maior, está indo mais para sul, e é isso que está trazendo para essa região Sul do Brasil a intensificação desses ventos.”

Brasil é de fato o segundo país mais propenso a tornados?

O pesquisador do Inpe acredita que sim, embora tenha algumas discordâncias metodológicas com o estudo da Unicamp que chegou a essa conclusão.

“Podemos afirmar, com uma boa dose de confiança, que quando pegamos os registros de tornados intensos e que são realmente muito destrutivos, fora dos Estados Unidos, não tem outro país com tanta documentação”, diz Nascimento.

“Já estou há mais de dez anos estudando esse tipo de fenômeno, e consigo afirmar que o Brasil, em termos de tornados intensos, só fica atrás dos Estados Unidos nessa frequência de registros. Lógico, que com os Estados Unidos muito à frente.”

Essa também é a avaliação de Luci Hidalgo Nunes, professora aposentada da Unicamp.

“O sul da América do Sul — incluindo o Sul e partes do Sudeste do Brasil — apresenta condições atmosféricas e fisiográficas particularmente favoráveis para a formação de tornados”, diz Nunes.

“Falta um banco de eventos mais completo na América do Sul e mesmo radares do tipo Doppler que permitem melhor aferição desse fenômeno. Mas, depois da América do Norte, esse setor é o que apresenta condições mais propícias para a formação de tempestades tornádicas no mundo”, afirma.

“Simplificando ao máximo, essas condições favorecem o encontro de sistemas atmosféricos distintos, facilitadas por condições de relevo”, conclui.

Uma meteorologista monitora uma tempestade a bordo do veículo Doppler on Wheels. Ela veste camiseta preta e observa uma tela de computador com uma imagem colorida
Nos EUA, meteorologista monitora uma tempestade de supercélula a bordo do veículo Doppler on Wheels, um radar Doppler móvel montado em um caminhão que leva instrumentos diretamente para o interior das tempestades

E vêm mais tornados por aí?

Infelizmente, os especialistas acreditam ser provável que teremos mais tornados pela frente.

“Tipicamente falando, anos de El Niño são anos onde as tempestades severas são mais frequentes no Sul do Brasil”, diz Nascimento, acrescentando que esse quadro se agrava com a expectativa de um El Niño forte.

O fenômeno, marcado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico, provavelmente explica também por que essa temporada de tornados começou mais cedo, com muitos registros desde junho, ainda no início do inverno.

“Entre agora, o final de inverno e toda a primavera, é um período que vai ser acompanhado de perto, com uma certa prontidão, já tendo essa expectativa de que os tornados podem ocorrer com mais frequência”, afirma o pesquisador do Inpe.

Francisco de Assis Diniz, do Inmet, observa ainda que é esperado para o início de agosto a chegada de uma nova frente fria de maior intensidade entre a região Sul e a Argentina, trazendo maiores condições para temporais. (BBC)

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