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Quem entra, quem sai e quem fica: o eleitor volta ao centro do poder

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Opinião  •  Eleições

Campanha é discurso.
Mandato é prova.

Qualquer um parece generoso e honesto durante a campanha. Difícil é sustentar isso quando não há câmera ligada nem voto para pedir.

Por Daniel Oliveira da Paixão

A
partir deste domingo, começa oficialmente mais uma campanha eleitoral.

Oficialmente, porque, na prática, muita gente já está em campanha há meses. Alguns há anos. Há político que termina uma eleição pensando na próxima. Muda o cargo pretendido, muda a fotografia, muda o slogan, muda a equipe de marketing, mas a campanha continua.

Para quem já tem mandato, a largada acontece alguns metros adiante. Já tem nome conhecido, espaço na imprensa, seguidores, aliados, prefeitos, vereadores, lideranças e toda uma rede construída ao longo do tempo.

Quem chega agora precisa correr atrás.

Isso não quer dizer que político com mandato esteja eleito. Longe disso. Eles vão se enfrentar entre si e também disputar espaço com empresários, servidores públicos, lideranças religiosas, agricultores e outras pessoas que chegam à eleição com alguma notoriedade social.

E aí começa o nosso problema.

O problema de nós, eleitores.

Durante alguns meses, vamos ouvir maravilhas.

Teremos candidatos apaixonados pela saúde, pela educação, pelos agricultores, pelos servidores públicos, pelas crianças, pelos idosos, pelos pobres, pelos empresários, pelos trabalhadores e, se deixarem, até pelos cachorros abandonados nas ruas.

Ninguém será contra nada que seja bom.

Nunca vi candidato prometer piorar a saúde.

Também nunca vi alguém subir num palanque para anunciar que pretende aumentar os buracos das ruas, abandonar escolas e tornar a vida do cidadão mais difícil.

Todos querem melhorar tudo.

É emocionante.

Se dependesse de programa eleitoral, o Brasil seria a Suíça com praia.

Agora, com inteligência artificial, então, a coisa ficou ainda mais fácil. Qualquer candidato pode ter um programa de governo impecável.

Basta pedir:

Faça para mim um plano moderno de desenvolvimento econômico, com responsabilidade fiscal, inclusão social, sustentabilidade, inovação, saúde humanizada, educação de qualidade e geração de empregos.

Pronto.

Em segundos nasce um estadista.

O problema nunca foi escrever promessa bonita.

O problema é cumprir.

E aí aparece uma realidade que campanha eleitoral costuma esconder: dinheiro público não fica empilhado num cofre esperando o governante decidir o que fazer.

Grande parte do orçamento já está comprometida com salários, previdência, saúde, educação, contratos, manutenção da máquina, dívidas, repasses e obrigações legais.

Por isso fico desconfiado quando alguém promete resolver tudo.

Se o sujeito promete o céu, eu gostaria que explicasse pelo menos onde pretende comprar a escada.

◆ ◆ ◆

Outra coisa curiosa nesta época é o candidato que se apresenta dizendo:

“Eu não sou político.”

Como se isso fosse certificado de honestidade.

Ora, meu amigo, todo político um dia não foi político.

O político que hoje você chama de velho, ultrapassado e integrante da velha política também apareceu em alguma eleição dizendo que representava a renovação.

Entrou.  →  Ganhou.  →  Foi reeleito.

Depois virou exatamente aquilo que dizia combater.

A política é cheia dessas ironias.

Portanto, ser novato não significa ser bom.

E ser experiente não significa necessariamente ser ruim.

O que interessa é a trajetória.

Se alguém diz que sempre ajudou os pobres, quero saber onde ajudou. Quem ajudou? Quando?

Se passou vinte anos sem aparecer num bairro pobre e descobriu a periferia seis meses antes da eleição, eu tenho o direito de desconfiar dessa súbita paixão social.

Se o candidato é empresário e apresenta seu sucesso empresarial como currículo, ótimo. Então vamos olhar a empresa.

Se é empresário, pergunte

Como ele trata os empregados?

Paga corretamente?

Respeita direitos?

Valoriza quem trabalha para ele?

Como trata os clientes?

Pratica preços razoáveis ou tenta arrancar até o último centavo de quem entra no estabelecimento?

Empresário precisa lucrar. Isso é óbvio. Sem lucro não existe empresa.

Mas a forma como alguém ganha dinheiro também revela muito sobre sua visão de mundo.

Um empresário que trata dez funcionários como peças descartáveis dificilmente me convencerá de que, eleito, acordará milagrosamente preocupado com milhares de trabalhadores.

O mesmo vale para o servidor público que resolve ser candidato.

Se é servidor, pergunte

Como era no serviço?

Trabalhava?

Atendia bem?

Cumpria horário?

Resolvia problemas?

Ou passou anos fugindo de serviço e agora descobriu uma vocação extraordinária para servir ao povo?

Vale para todos: agricultor, médico, advogado, professor, pastor, empresário, servidor, jornalista.

Não basta dizer quem é.

É preciso observar quem foi.

E quem já tem mandato facilita ainda mais o nosso trabalho. Esse já deixou pegadas.

Podemos verificar o que fez, como votou, quais projetos apresentou, quais posições assumiu, que recursos conseguiu e se apareceu durante o mandato inteiro ou somente quando percebeu que a eleição estava chegando.

Campanha é discurso.

Mandato é prova.

Talvez esse seja o melhor critério para nós, eleitores, nos próximos meses.

Em vez de perguntar apenas:

“O que esse candidato está prometendo?”

Talvez devêssemos perguntar:

Quem era essa pessoa antes de precisar do meu voto?

Porque durante uma campanha eleitoral qualquer um consegue parecer generoso, competente, honesto, trabalhador e preocupado com os pobres.

Difícil é sustentar essas qualidades quando não existe câmera ligada, santinho para distribuir nem voto para pedir.

E é justamente aí que começa a diferença entre candidato e cidadão.

No fim das contas, talvez a eleição seja muito menos uma escolha entre esquerda e direita, novo e velho, empresário e servidor, político e não político.

Talvez seja simplesmente uma escolha entre pessoas.

E, como em qualquer escolha entre pessoas, convém olhar menos para aquilo que elas dizem sobre si mesmas e um pouco mais para aquilo que fizeram quando ninguém estava pedindo voto.

DP
Daniel Oliveira da Paixão
Papudiskina

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