⚡ Papudiskina
A insustentável leveza de farmar aura
Por Daniel Oliveira da Paixao
Há momentos em que a gente percebe, com uma clareza quase cruel, que envelheceu. Não é quando aparece um cabelo branco, nem quando o joelho reclama ao levantar da cadeira. É quando um adolescente solta uma expressão aparentemente incompreensível, todos ao redor entendem perfeitamente e você fica com aquela sensação de que desembarcou no planeta errado.
A expressão da vez é “farmar aura”.
Para quem passou dos 40, 50 ou 60 anos, a primeira reação provavelmente será perguntar: “Farmar o quê?”
Pois é.
📚 Glossário rápido para quem passou dos 40
Farmar: vem dos videogames — acumular algo por meio de ações repetidas (dinheiro, experiência, pontos).
Aura: a soma de carisma, presença, estilo, confiança e capacidade de impressionar os outros.
E o placar funciona mais ou menos assim:
+ AURAFez algo elegante? Ganhou aura.
+ AURADeu uma resposta brilhante? Mais aura.
+ AURAEntrou em algum lugar parecendo personagem principal de filme? Pode colocar alguns milhares de pontos na conta.
− AURAPassou vergonha tentando parecer interessante? Perdeu aura.
Para completar, já surgiram no Brasil as chamadas batalhas de aura, nas quais jovens se enfrentam não exatamente numa luta, mas numa espécie de duelo de presença. Vale olhar, pose, gesto, dança, expressão facial e tudo aquilo que possa convencer o público de que determinado participante tem mais “aura” que o adversário.
Para nós, os mais velhos, isso talvez pareça absolutamente estranho.
Para muitos jovens, entretanto, é perfeitamente natural.
E aí convém não cometer aquele velho erro de cada geração: imaginar que a geração seguinte enlouqueceu simplesmente porque inventou palavras, hábitos e códigos que não existiam antes.
🌟 Nós também tivemos nossas gírias.
🌟 Também tivemos nossas roupas ridículas.
🌟 Também imitamos artistas, músicos e personagens.
🌟 Também fizemos coisas que nossos pais olhavam e pensavam: “Onde foi que erramos?”
A diferença é que antes essas modas demoravam meses ou anos para se espalhar. Hoje um vídeo publicado de manhã pode estar sendo repetido por milhões de pessoas à noite.
A internet tornou a adolescência global.
Um gesto criado num bairro qualquer pode atravessar continentes em poucas horas. Uma expressão nascida dentro de um videogame passa ao TikTok, dali vai para a escola, para a rua e, de repente, chega à mesa do almoço quando o pai pergunta por que o filho acaba de anunciar que o tio “perdeu 500 pontos de aura”.
Até aí, nada demais.
O problema talvez comece quando uma brincadeira passa a exigir performance permanente.
Porque existe uma contradição curiosa nessa história.
Carisma é justamente uma das coisas mais difíceis de fabricar.
Quem tenta parecer carismático demais geralmente deixa de ser carismático.
Quem se esforça excessivamente para parecer espontâneo deixa de ser espontâneo.
Quem vive preocupado em demonstrar que tem personalidade corre o risco de revelar exatamente o contrário.
E talvez aí esteja a própria condenação dessas batalhas de aura.
Tudo indica que será mais uma dessas modas fulminantes da internet: surgem, explodem, tomam conta das redes e desaparecem quando todos se cansam.
Até porque sustentar aura dá trabalho.
Imagine acordar todos os dias sabendo que qualquer tropeço, qualquer frase equivocada, qualquer tentativa frustrada de parecer interessante pode render uma sentença pública de −10.000 aura.
É cansativo demais.
E, para muita gente, pode se transformar numa espécie de flagelo contemporâneo: descobrir diante dos outros que aquele personagem cuidadosamente construído é impossível de sustentar.
Nesse ponto, a brincadeira juvenil encontra, por caminhos improváveis, um escritor que provavelmente jamais imaginou que seria convocado para explicar uma competição viral brasileira.
📚 Plot twist literário
Milan Kundera, escritor tcheco naturalizado francês, publicou em 1984 seu romance mais famoso: A Insustentável Leveza do Ser.
É evidente que Kundera não estava falando de TikTok, adolescentes ou batalhas de aura.
Mas o título parece ter atravessado quatro décadas apenas para nos oferecer uma boa provocação.
Há coisas que parecem leves apenas enquanto não precisamos sustentá-las.
A imagem é uma delas.
A fama também.
O personagem que criamos diante dos outros, mais ainda.
Talvez essa seja a verdadeira insustentabilidade do “farmar aura”.
Você pode conquistar mil pontos hoje.
Pode entrar numa sala de óculos escuros, fazer uma pose cinematográfica, soltar uma frase perfeita e sair com 20 mil pontos imaginários.
Mas amanhã será preciso fazer novamente.
E depois de amanhã também.
Até chegar o dia em que alguém descobre aquilo que a vida ensina mais cedo ou mais tarde: ser permanentemente interessante é uma tarefa impossível.
Talvez por isso os jovens se cansem rapidamente dessa novidade.
Ou talvez inventem outra ainda mais estranha.
E nós, os mais velhos, faremos novamente aquilo que sabemos fazer muito bem.
Perguntaremos o que significa.
Acharemos absurdo.
Reclamaremos da juventude.
E, algumas semanas depois, estaremos usando a expressão também.
Porque, pensando bem, poucas coisas fazem alguém perder tanta aura quanto tentar convencer os outros de que jamais envelheceu. 🔥














