Gesto de Mbappé, Vini Jr. e Konaté reacende debate sobre a solidariedade seletiva
Ao esconderem parcialmente a mensagem “Todos somos caballas”, jogadores transformaram uma homenagem a Ceuta em discussão mais ampla: é possível demonstrar solidariedade a uma população sem deixar invisível o sofrimento dos imigrantes?
Uma imagem registrada antes de Real Madrid e Elche acabou dizendo muito mais do que estava escrito nas camisetas. Enquanto a maioria dos jogadores exibiu normalmente a frase “Todos somos caballas”, em solidariedade à população de Ceuta, Kylian Mbappé, Vinícius Júnior e Ibrahima Konaté mantiveram a mensagem parcialmente encoberta.
Dos três, apenas Mbappé explicou publicamente sua motivação. O francês afirmou ter “total solidariedade com Ceuta e todas as vítimas”, mas disse que também queria fazer um gesto pelos imigrantes que morreram ou enfrentam condições difíceis. Em outra formulação, resumiu que não pretendia estabelecer uma prioridade entre sofrimentos.
Se considerarmos, como hipótese de interpretação, que Vinícius e Konaté compartilharam da mesma motivação, a fotografia ganha outro significado.
Os três não estariam recusando solidariedade a Ceuta. Estariam recusando uma solidariedade que, na visão deles, pudesse terminar na fronteira entre “os nossos” e “os outros”.
Ceuta enfrentou em julho uma grave crise após dezenas de milhares de entradas irregulares vindas do Marrocos, situação que trouxe transtornos e preocupação à população local. A campanha “Todos somos caballas” surgiu como manifestação de apoio aos moradores da cidade espanhola no norte da África.
É justamente aí que nasce a controvérsia. Para quem promoveu e apoiou a campanha, vestir a camiseta significava simplesmente demonstrar solidariedade aos ceutenses atingidos pela crise. A homenagem, por essa interpretação, não implicava hostilidade aos migrantes.
O gesto dos três jogadores permite, porém, outra leitura: o sofrimento de quem recebe uma crise migratória não elimina o sofrimento de quem atravessa uma fronteira em condições extremas. Reconhecer um lado não deveria necessariamente significar tornar o outro invisível.
A cena tornou-se poderosa justamente pelo contraste. Dez jogadores aparecem com a mesma frase plenamente visível. Três estão no mesmo espaço, usando a mesma camiseta, mas escondem parte da mensagem. Não abandonam a homenagem; introduzem uma ressalva.
É uma discussão que ultrapassa o futebol. Em tragédias, guerras e crises migratórias, a solidariedade muitas vezes acompanha fronteiras nacionais, culturais ou políticas. Algumas vítimas recebem rosto, nome, campanha e homenagem. Outras permanecem fora da fotografia.
Mbappé deixou claro que não pretendia diminuir o drama vivido pelos moradores de Ceuta. Sua posição foi acrescentar ao enquadramento aqueles que, segundo ele, também estavam sofrendo. O Real Madrid, diante da repercussão, defendeu a liberdade de seus jogadores para expressarem posições pessoais.
“Todos estavam diante da mesma tragédia, mas nem todos aceitaram olhar para ela pelo mesmo ângulo.”
Talvez por isso aquela fotografia tenha provocado tanto debate. Para alguns, a camiseta dizia: “Estamos com Ceuta”. Para os três que a mantiveram parcialmente escondida — adotada aqui a hipótese de uma motivação comum —, a mensagem poderia ser ampliada:
“Estamos com Ceuta. Mas também não queremos esquecer quem chegou até Ceuta fugindo, sofrendo ou morrendo pelo caminho.”
