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Gaspar | Capítulo 1 | Alberto Ayala Filho

9 minutos de leitura

Ora, tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério de reconciliação, a saber, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos seres humanos e nos confiando a palavra de reconciliação. Portanto, somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por meio de nós. Em nome de Cristo, pois, pedimos que vocês se reconcilie com Deus. Aquele que não conheceu o pecado, Deus o fez pecado por nós, para que, n’Ele, fôssemos feitos justiça de Deus.

2 Coríntios 5:18-21

A cidade movimentada e o calor daquela tarde de terça-feira, 22 de setembro de 2026. Gaspar estava sentado no banco dos passageiros enquanto o motorista o observava discretamente pelo espelho retrovisor interno.

— Você acha que o trânsito vai melhorar, Frederico? — perguntou Gaspar com uma elegância europeia. O estilo de homem que exalava a nobreza sem dizer nenhuma palavra.

— Creio que sim, senhor — respondeu o motorista com um olhar de preocupação. As pernas inquietas e o desejo de ser muito eficaz no seu ofício.

— É assim mesmo. O caos da cidade grande e os homens que estão ávidos pelo dinheiro — comentou o patrão em um tom reflexivo. — Uma busca pelo reconhecimento. Às vezes…

Pausa dramática de um homem calejado pelo tempo. Continuou:

— Na maioria das vezes, o reconhecimento não vem. De propósito. Não por falta da qualidade dos que executam as tarefas mais emblemáticas nesta sociedade.

— O senhor fala de um jeito — disse Frederico com temor de parecer invasivo. — É um escritor famoso. Realmente sabe o que está falando, mas parece uma oratória melancólica. Me remete a tristeza. E a tristeza engaveta os sonhos e as mais esplêndidas aspirações.

— É verdade — concordou Gaspar ajeitando-se levemente no banco de trás do luxuoso carro. — É verdade, Frederico. Por anos fui um homem que cultivou um notável apreço pela positividade. Acontece que amadurecer significa ter que abrir mão das vãs ilusões.

— Compreendo que a vida não é um mar de rosas, senhor. Só que… não é melhor acreditar nas alegrias do que nas tristezas?

Gaspar não respondeu de imediato. Processou a pergunta por alguns instantes.

— É melhor acreditar nas alegrias da vida, Frederico!

— Então? Com todo o respeito, eu não gosto de ver o senhor assim.

— Assim como?

— Se lamentando. Não é legal, patrão! Logo o senhor que é um homem que possui tanta inteligência. As pessoas gostam de ler os seus romances cristãos. Elas se inspiram nas narrativas que o senhor escreve.

— Romances cristãos…

Gaspar estava longe.

— Eu mesmo indico para alguns amigos que vão à igreja e todos eles se sentem tocados pela escrita do senhor. Ela aproxima muita gente de Deus. É diferente dos romances que são publicados apenas para vender. O hype passa, patrão. Já as palavras do Criador permanecem e nos conduzem à vida eterna. Os romances cristãos que o senhor escreve apontam para o Todo-Poderoso. É uma belíssima missão literária! Uma missão indubitável.

— Eu sei, Frederico!

— Fico feliz pelo senhor!

— Mas eu estou em uma fase de grandes reflexões. Um período para me refazer como ficcionista religioso. Para enxergar as duras verdades e as mais belas oportunidades que estão ao meu redor.

Frederico deu um sorriso amigável. Disse:

— Saiba que estarei orando pelo senhor.

— Agradeço por tal benevolência, querido.

— Estou aqui para honrá-lo como patrão! — afirmou o motorista.

— Eu admiro a sua lealdade — disse Gaspar. Respirou fundo. O seu perfume francês era maravilhoso. — És um servo de Deus!

Então, o trânsito começou a melhorar. Frederico comemorou com um sorriso. Foi dirigindo por uma importante avenida da cidade em direção a mansão do escritor.

Sentada em um belíssimo sofá, Amélia, a irmã do escritor, toda vaidosa e já tomando um chá de camomila e se deliciando com os biscoitos de chocolate que a empregada havia preparado horas antes.

— Eu amo o Gaspar, Matilde — disse Amélia envolta de uma empolgação incomum. — Mas ele é tão distante. Tão frio às vezes. Nem parece aquele Gaspar que amava percorrer as elegantíssimas ruas de Parí. Ah! Parí e os vários cavalheiros que me achavam linda. E eu era linda. Ainda sou, claro. Só que a beleza da juventude é diferente. Sabe? A pele, os trejeitos, o olhar, as ideias. O frescor de ser cortejada e ainda sentir uma emoção de entender que o novo te espera. Ah! Tantas lembranças de um passado glorioso. As joias. Eu tinha tantas joias e já fui pintada por vários artistas plásticos italianos.

— O senhor Gaspar já me mostrou várias fotos de vocês dois em Paris, Veneza, Itália, Estados Unidos, Espanha…

— Espanha. ¡Me enamoré de un español tan bello y educado! Javier y su voz tan hermosa. ¡Aún lo extraño!

— Nossa, dona Amélia! A senhora é viajada mesmo, hein?!. Sabe falar até espanhol.

— Claro que eu sou viajada! Eu estudei em colégios particulares. Eu tive aulas com professores de idiomas que eram maravilhosos e lindos.

— Nossa! Tô impactada!

— Eu sei que sou uma diva.

— E por que a senhora ficou pobre? — perguntou a empregada inocentemente.

De repente, toda a espontaneidade de Amélia foi embora. Até o olhar mudou. Assumiu uma postura arrogante.

— E quem é você para ficar me fazendo perguntas tão indiscretas? Por acaso nós somos duas amiguinhas? Se coloque no seu devido lugar, Matilde.

— Desculpa, senhora!

— Está desculpada!

— Não vai mais se repetir.

— Espero que não. Afinal, somos duas mulheres completamente diferentes. Eu nasci em berço de ouro. E você?

— Eu sou de origem humilde, dona Amélia. Meu pai e a minha mãe não sabiam nem ler, nem escrever.

— Coitados! Coitada de você, Matilde! É por isso que você não sabe se comportar direito. A vida é assim mesmo. Muitas injustiças. Muitas desigualdades e você, infelizmente, me parece que não nasceu para vencer. Nem para dar um golpe em um velho rico e doente serviu. Muita tristeza nessa sua vida predestinada ao horror!

Os olhos de Matilde ficaram marejados. Ela sentiu na pele a dor da humilhação naquele momento.

— Não fica assim não. Enquanto há vida, Matilde, há esperança. Eu conheço alguns velhos que adorariam se envolver com uma mulher mais nova. Mesmo burrinha. Assim é que eles gostam mesmo.

— Eu não sou esse tipo de mulher que se envolve com um homem mais velho apenas pelo dinheiro. Eu acredito em Jesus. Eu tenho caráter.

— Jesus? — questionou Amélia com um tom de deboche. Deu uma risada. — Por favor! Jesus? E você acredita nas mentiras que o meu irmão, seu patrão, escreve naqueles romances tenebrosos?

— Não fale assim do senhor Gaspar, dona Amélia. Ele escreve romances abençoados por Deus.

Sentindo-se provocada, Amélia levantou-se do sofá e gritou:

— Está discordando de mim, empregadinha miserável?

Mesmo assustada, Matilde não abaixou a cabeça e respondeu:

— Estou, dona Amélia. E se a senhora continuar me agredindo com palavras e ousar me dar um tapa, eu chamo a polícia. Eu não tenho medo da senhora. E eu não sou tão burra assim. Eu conheço os meus direitos. Mereço ser respeitada!

Amélia riu. Ajeitou os cabelos loiros, levemente ondulados e hidratados. Disse:

— E assim a população vai se rebelando contra os que realmente são educados. A população pensa que pode, mas no fundo não passa de um bando de famintos que nunca serão nobres.

— A senhora se acha muito, mas depende do dinheiro do irmão. O senhor Gaspar é um homem tão generoso. Tão fiel a Deus. Ele poderia muito bem não querer ajudar a senhora. Só que ele escolheu agir diferente. Ele é humano. Como é que a senhora tem coragem de ser assim? Tão má. Tão ingrata. Detesta os romances cristãos que o senhor Gaspar escreve e continua se aproveitando do sucesso literário dele.

— Quanta petulância vindo da cozinha! Quanta amargura de uma mulher invejosa que jamais esteve em Milão!

— Eu não conheço a Europa. É verdade. Eu conheço a Bíblia, dona Amélia. Na Bíblia, o Senhor ensina o ser humano a trabalhar. O Senhor ensina o ser humano a amar os outros. A senhora precisa ler a Bíblia!

— Ler a Bíblia para quê? Para me iludir com a hipótese de um de um Deus que realiza milagres no mundo? Francamente…

Pegou um cigarro na sua bolsa comprada em Milão e o acendeu com um isqueiro prata. Começou a fumar na mesma vibe das mulheres dos anos 40.

— Faça-me o favor de não tentar me evangelizar. É um pedido sincero de uma mulher que pode ser muito cruel com pessoas como você, Matilde.

Inesperadamente e triunfante, Gaspar entrou na sala dizendo em um tom de voz imponente:

— Seja cruel com a minha querida empregada Matilde e você não verá mais a cor do meu dinheiro, senhora mal-educada!

Amélia virou-se assustada com a frase dita pelo irmão milionário. Os olhos estavam arregalados. O coração acelerado. A máscara da víbora caindo diante de um homem que realmente lia a Palavra de Deus e buscava exercê-la no seu dia a dia.

— E se continuar insultando a Matilde com palavras tão criminosas e malditas, a cadeia te espera, dona Amélia.

— Gaspar? Eu…

— Não precisa se explicar. Eu escutei tudo o que você disse para a Matilde que te recebeu com tanta delicadeza. Poxa! Cadê a educação europeia da senhora Amélia? Esqueceu de agir com nobreza? Ou nobreza é apenas um título usado quando lhe convém, mal-educada?

— Eu me excedi, Gaspar! Confesso. Foi um erro.

— Eu te conheço, Amélia. Eu sei que você não é humilde. Finge ser em algumas situações, mas logo a farsa é descoberta.

— Quanta injustiça, meu irmão! Ela também me insultou.

— É mesmo?

— Sim. Ela me insultou, Gaspar. A Matilde adora ter que me lembrar que sou uma mulher falida. Ela fala isso com gosto. Eu vejo no olhar dela. O tom de voz dela é de soberba. Mesmo ela sendo empregada, ela é soberba. Gaspar, os pobres também podem ser vilões.

— Não é o caso da Matilde. Eu a conheço.

— Será, Gaspar?

— Eu a conheço. O Espírito Santo não me deixa enganado!

— Lá vem você com esses papos religiosos. Ninguém merece.

— Os incomodados que se mudem.

— Entendi — disse Amélia segurando o cigarro aceso. — Eu não dependo só da sua grana. Saiba disso, meu querido irmão. Muitos homens ainda são apaixonados por mim. Se eu quiser, Gaspar, amanhã mesmo eu viajo para Dubai. O que não me faltam são oportunidades de ser feliz longe de você, seu insuportável.

— Insuportável é essa fumaça do seu cigarro. Quantas vezes eu disse que não para fumar na minha casa? Amélia, eu oro para Deus transformar a sua vida, mas a cada dia você se mostra inflexível com o chamado do Senhor. Eu não te odeio, minha irmã! O que eu quero é te ver firme na presença do Senhor!

 

Alberto Ayala Filho é um escritor evangélico e colunista em diversos sites de Rondônia. Aos 26 anos de idade, exerce um ministério na literatura cristã e enfatiza que a Bíblia é o livro mais sábio da civilização humana.

 

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