Mariscando Real no Juruá

Mariscando Real no Juruá

Nem o baiacú buia no paneiro¹*

Por Geraldo Gabliel

RAY LAMBERIE CURIÓ

Trapiche do Moa, S/Nº

69980-000 Cruzeiro do Sul – AC

BRASIL AMAZÔNICO

Um sobrevoo na Selva Amazônica é uma experiência inesquecível: paisagem de um imenso mar verde-louro, serpenteado por rios e igarapés – que se parecem artérias que hidratam um organismo vivo – o pulmão do Planeta(?). E, são essas vias fluviais, o caminho do homem amazônida – o Soldado da Borracha – que vai singrando com seu batelão de pesca aquelas águas sagradas à vida – em busca do “peixe nosso de cada dia”. É nesse ambiente que Geh Latinus encontra… Ray Curió.

Chuva de Real? O ano era 1994. Dia? 1º de julho. O voo em avião bimotor da TAVAJ de Rio Branco a Cruzeiro do Sul era uma aventura – emocionante e perigosa… Geh Latinus e seu fiel escudeiro amigo R. Nayde, embarcados (ou seria avionados? Já que não estavam em barco) para a cidade ribeirinha do Juruá – Cruzeiro do Sul – AC. Os amigos haviam aceitado uma missão de espalhar iscas do Evangelho – livros, revistas, palestras e, “sermões”, para pescar homens e mulheres para o seu Senhor…

Naqueles idos anos dos 90’s, em época de muitas chuvas, os caminhos barrentos de uma BR (acho que é a 364 einh!), mais de 800Km,  eram intransponíveis, e então, a gente viajava de avião – aqueles pequenotes que levavam uns 12 passageiros e demoravam 2 horas de viagem sobre a mata virgem – trepidavam como uma carroça velha – até chegar em CZS. Dava medo… Mas, naquele dia 1º de julho, além do medo de despencar lá cima, um outro tipo medo tomou conta de nós ao chegar no aeroporto destino… Quando o avião já estava em procedimento de aterrisagem:  – havia um movimento verde intenso tomando conta do aeroporto – e não eram árvores, não eram plantas balançando… Era de pessoas, gente! Gente vestida de verde-oliva – coturno e boina! E Fuzil, muitos fuzis… engatilhados! Todos em prontidão, apontando em nosso rumo, esperando a nossa chegada, nosso desembarque da aeronave. Dio Santo! – O que está acontecendo por aqui? (pensamos).

Logo eu lhe conto o restante da história… Voltemos ao primeiro contato com Curió:

Como eu lhes havia dito, Ray Lamberie Curi – Soldado da Borracha – beradeiro do Moa em Cruzeiro do Sul, Acre – Brasil. O homem que conduzia um batelão como nenhum outro – mestre do marisco no Juruá. Vivia como ribeirinho às margens do Moa – um igarapé que, desde as cheias até as vazantes do Juruá, era uma inundação só – e ali vivia Curió com sua família e muitos vizinhos numa palafita toda interligada por trapiches… Tinha até uma “horta de peixes” – onde: – “Namorado não se cria!” – Não se cria mesmo pois, namorado é um peixe do mar, da água salgada – os rios da Amazônia são rios de água doce. Agora, essa de “alumiar a casa com a luz do poraquê” – que é o peixe elétrico – isso não cola, é zoeira do Mr. Ray… gozador! E “rolar o rabo da arraia” isto sim, é um ato de coragem; – é decepar aquela flecha serrilhada venenosa da arraia com o facão (terçado)… Se a arraia ferrar o seu pé, dói por três dias sem parar – a dor mais doída da vida… ¡Tu te cagas vivente! (Se lhe acontecer, tira o ferrão da diaba, e aplica uma pasta de salsinha verde).

Essa de – “a única criatura que não se envergonha, muda de cor… e de sexo – após engolir un’scaravelho – vive na água e, depois de 3 dias após o coito, se afunda no rio e nunca mais buia”³ – não entendi! – fui pesquisar e, que difícil pra desvendar este enigma… – Encontrei! – é a Vitória Régia! – No primeiro dia, à noite, se abre como uma flor branca vestida de um véu de noiva, e é feminina; fecha-se e, no outro dia, reabre, e muda de cor: – cor-de-rosa e, torna-se masculina. Durante este processo, recebe um visitante especial – um escaravelho – que é preso ao fechar da flor, permanece fechado ali até o dia seguinte e, enquanto prisioneiro, poliniza a rainha da flores da Amazônia – a flor cujo nome homenageia uma Soberana da Inglaterra.

Ah! Mais um detalhe curioso: – o besouro sente frio, e precisa de calor. Então, no aconchego das pétalas da Vitória Régia, essa magnifica flor produz calor e aquece o “amiguinho” para que ele se sinta confortável e feliz enquanto dissemina entre os órgãos reprodutivos da Victoria amazonica a sua autopolinização. A cerimônia do “acasalamento” dura apenas 3 dias, depois, a flor imerge nas águas do rio…

Quando Ray contava sobre o marisco, logo se pensava nos “frutos do mar” no litoral carioca, iguarias caras nos restaurantes de Copacabana, mas… nada disso: – O marisqueiro Ray Lamberie estava falando era de pescaria de peixes mesmo… por isso, eu nunca vi, lá no Acre, o marisco carioca; só vi pacuzinho, matrinxãs e piraíbas. E eu gostava mesmo deles é quando chegavam bem fritinhos na feirinha de Iracema lá no mercado da cidade. Aliás, era ali que se tomava uma boa Bacaba, um bom Buriti, e um Açaí de tigela bem fresquinho lá da mata do Igarapé Preto – até comia um Arabu (urubu não!) – a-ra-bu: – ovos de tartaruga crus, ou levemente cozidos, com farinha de mandioca e um pouco de sal. (A melhor farinha de macaxeira do mundo é produzida em Cruzeiro do Sul – experimente aquela com coco seco ralado – delíiiicia). É lá que a gente tem comida no balde…

– Ridjanga!² Vou lhe contar o que aconteceu naquele aeroporto naqueles momentos de suspense, e ansiedade:

– O Real tornou-se no Brasil, a moeda oficial brasileira no dia 1º de julho de 1994, durante o governo de Itamar Franco, que tinha como ministro da fazenda Fernando Henrique Cardoso – que se tornou, posteriormente, o presidente do nosso país; logo: – A gente  estava viajando em um avião cheio de dinheiro… ele estava pesado de tanto pacote de dindin. E eu – “pobre meninoooo, não tem ninguémmm…” (Sem dinheiro ninguém tem ninguém mesmo, né?). O Exército de Caxias estava ali em batalhões para proteger aquela carga valiosa – que deveria ser eu, mas… eram aquelas notinhas, bem novinhas em folha, da nova moeda que chegava na cidade para desbancar o já envelhecido e desvalorizado URV/Cruzeiro Real… Este fato me lembrou quando, dez anos antes, trabalhando no Banco Bamerindus, no caixa, muitas vezes a gente entregava a algum empresário da cidade umas caixas de dinheiro que vinham já embaladas desde a Casa da Moeda do Brasil – notinhas estalando de novinhas, encintadas, e com um cheirinho marcante, inesquecível – não me lembro quantos zilhões vinham na caixa… e a gente entregava aos empresários madeireiros ali na Capital da Madeira – nossa cidade vizinha de Rolim de Moura. Meu salário era Cz$1.200.000,00 (Um milhão e duzentos mil cruzeiros reais). Ufa! Muitos zeros né?! Assim era o nosso dinheiro em 1984/94. Eu preciso de um milhão hoje… (https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2024/07/01/antes-do-real-brasil-teve-5-moedas-em-menos-de-10-anos-veja-em-quiz.ghtml).

Cansado e com sono aqui… pensando em “contas a pagar”, eu queria mesmo é falar sobre: “Pisaram nas nossas flores” e “fish expedition”… por falar em flores e peixes, mas eu falo outro dia então, tá?

– Um abraço do Latinus e um salve de Raimundo Curió (não sei se ele ainda vive entre nós!)

¹https://www.facebook.com/photo.php?fbid=604024999609219&id=122029597808764&set=a.581735425171510&locale=pt_BR Acesso em 14 de março de 2025.

²https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/acreanes-conheca-as-girias-e-expressoes-mais-usadas-pelos-acreanos.ghtml Acesso em 14 de março de 2025.

³ https://www.facebook.com/reel/554891337606244 Acesso em 14 de março de 2025.

*PANEIRO – é o cesto amazônico por excelência, feito de talas de guarimã, guarumã ou arumã,[…] é confeccionado em traçado hexagonal, formando “estrelas de Davi” . A palavra paneiro é hibrida, vem do tupy – PANÁ (cesto) com o sufixo português – EIRO que expressa uso, finalidade e profissão (paná + eiro = Paneiro). Muita coisa se faz com o guarimã, além dos tradicionais paneiros, no passado, os caboclos ribeirinhos, embalavam farinha em paneiros que eram forrados com as folhas do guarimã. Carrega-se e guarda-se nos paneiros, de roupas a alimentos, até animais são transportados em paneiros na Amazonia. (ver no Museu Seringal Vila Paraíso).  Lucia Barreiros da Silva

 

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