Em meio a um clima de indignação e revolta, o prefeito de Cacoal, Adailton Fúria, reuniu lideranças políticas e representantes de diversos setores em seu gabinete, na manhã desta terça-feira (25), para anunciar uma forte mobilização contra a inclusão do município em um programa estadual de privatização das autarquias de água e esgoto.
Com discurso enérgico, Fúria rechaçou a iniciativa tomada sem qualquer consulta prévia à administração municipal. “Isso aqui tem porteiro, meu amigo. Isso aqui não é terra sem lei. Temos que ter responsabilidade”, declarou o prefeito, visivelmente contrariado, ao exibir documentos que comprovam a inclusão de Cacoal no programa de concessões.
A reunião de emergência contou com a presença do vice-prefeito Tony Pablo, vereadores, representantes do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), do sindicato dos servidores públicos e outras lideranças locais. Todos manifestaram apoio unânime à preservação da autarquia municipal, que opera há mais de 46 anos.
“O pau vai comer nessa audiência”
Fúria elevou o tom ao convocar a todos para a audiência pública marcada para 4 de abril, em Porto Velho. “Vão preparados, porque o pau vai comer nessa audiência”, alertou, referindo-se ao que classificou como uma “manobra” para empurrar Cacoal para um projeto que, segundo ele, não atende aos interesses da população.
O prefeito comparou o caso ao processo de privatização da BR-364 e da antiga Ceron, vendida à Energisa. “Vocês estão vendo o que estamos passando com a Energisa. E agora querem fazer o mesmo com o nosso SAAE”, criticou.
Durante a reunião, a prefeitura apresentou dados que reforçam a posição contrária à privatização: Cacoal conta com mais de 80% de cobertura em esgotamento sanitário e mais de 95% em abastecimento de água tratada na área urbana — indicadores que, segundo a gestão municipal, demonstram a eficiência da autarquia.
“Nós temos uma companhia que o município investe há várias décadas. Não vamos aceitar que o Estado, com essa proposta de regionalização, decida entregar nossa autarquia à iniciativa privada”, reforçou Fúria.
Falta de diálogo revolta autoridades
Um dos pontos mais criticados pelas autoridades locais foi a total ausência de diálogo prévio. O prefeito apresentou uma ata de reunião datada de 30 de abril de 2024, na qual nenhum representante de Cacoal foi convidado a participar.
“Como pretendem privatizar uma companhia municipal sem ouvir o prefeito, o SAAE, o vice-prefeito ou os vereadores? Privatizar sem nos chamar é passar dos limites. Aí o rabo está balançando o cachorro”, disparou.
Apoio político se fortalece
No início da mobilização, Fúria cobrou uma posição clara dos deputados estaduais da região. “Quero chamar a atenção dos nossos deputados. O deputado Cirone já está vindo. Aciona o deputado Cássio também, porque fomos pegos de surpresa”, disse.
O deputado estadual Cássio Gois prontamente manifestou apoio à causa. “Essa tentativa de se apropriar de um patrimônio do povo de Cacoal é inaceitável. Estamos juntos nessa luta para defender uma autarquia que funciona há mais de 46 anos e pertence à população”, afirmou.
Representantes do sindicato dos servidores reforçaram o apelo: “Contamos com os deputados da nossa região, mas também com os outros 22 que receberam votos em Cacoal. Todos têm o dever de defender o nosso município.”
Em nome da Câmara Municipal, o vereador Paulinho do Cinema foi enfático: “O SAAE é patrimônio do povo de Cacoal. Ninguém vai vir aqui dobrar o valor da nossa água como se fôssemos irresponsáveis. Vamos nos posicionar com firmeza.”
Tanto Cirone quanto Cássio Gois asseguraram total apoio à mobilização e reafirmaram que a companhia de Cacoal pertence ao povo e não será privatizada.
Convocação à população
Encerrando o encontro, Adailton Fúria fez um apelo direto à população: “Você, morador de Cacoal, compartilhe esse vídeo. Nós vamos precisar do seu apoio. Eu sei que isso é maior do que todos nós, sei que tem gente grande por trás, mas precisamos da força do povo. Isso aqui é nosso.”
A mobilização acontece no contexto da Consulta Pública nº 1/2025, aberta pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (SEDEC) entre 19 de março e 17 de abril, para tratar da concessão regionalizada dos serviços de água e esgoto da Microrregião de Águas e Esgotos de Rondônia.
Próximos passos
Fúria anunciou que buscará uma reunião com o governador Marcos Rocha, acreditando que o chefe do Executivo estadual possa não estar ciente da inclusão de Cacoal no projeto. “Conheço o governador e tenho certeza de que ele não sabe o que está acontecendo aqui. Vamos até ele”, disse.
A audiência pública em Porto Velho, no dia 4 de abril, promete ser um momento decisivo na defesa do SAAE. Cacoal se articula para demonstrar sua força política e popular, em nome da preservação de um serviço que considera essencial e historicamente eficiente.












