Por
Pedro Cardoso da Costa

Desaparecimento de pessoas é a maior dor do mundo
Não se sabe ao certo como se mede a dor, mas existem definições de graus para dores físicas e, não raro, especifica-se a maior dor do mundo, possivelmente a mais intensa. Contudo, tal definição é imprecisa. A maior dor é o desaparecimento de um ente querido, sendo superior, inclusive, à dor causada pela morte. Esta última possui um desfecho conclusivo. O vazio e a falta de respostas são as maiores causas do sofrimento daquele que procura por uma pessoa que desaparece.
O sofrimento começa no ato do desaparecimento, momento em que a pessoa mais próxima se sente culpada. Passa a imaginar o que deveria ter feito para evitar o ocorrido. Se o fato ocorreu numa viagem, pensa que não deveria ter permitido o trajeto, mesmo que centenas de outras viagens já tivessem ocorrido normalmente. Se ocorreu em casa, o responsável acha que não deveria ter saído. Esse roteiro se repete em qualquer forma de ocorrência.
Depois, surgem as indagações sobre as razões da saída. Se a pessoa foi vítima de tráfico internacional, como está vivendo ou se está sendo explorada; se vinha sofrendo algum abuso sexual com ameaças graves. Essas buscas por respostas perduram enquanto se mantiver a ausência ou enquanto a mãe e familiares próximos viverem. Posteriormente, a dor segue aumentando com as preocupações relativas ao modo de vida que o desaparecido está levando e ao seu bem-estar. Indaga-se se dorme na rua ou até se foi adotado por famílias ricas, com muito conforto e perspectivas materiais, motivo pelo qual nunca mais quereria saber da família originária.
Na próxima fase, iniciam-se as buscas por meio de ligações a amigos e colegas de escola; surgem as buscas pessoais em delegacias, hospitais e institutos médicos legais, mas sempre na esperança de encontrá-lo com vida. A desesperança, em parte, vem com o passar dos dias, meses e anos.
No processo seguinte, surgem as mágoas com os órgãos oficiais envolvidos. Enquanto para os parentes o caso é a coisa mais importante de toda a vida, para as instituições o tratamento é burocrático e rotineiro. É o maior desencontro entre o ápice da emoção e a frieza da razão.
Entretanto, a participação articulada entre os governos municipais, estaduais e federal poderia ser bem mais eficaz. Outra medida relevante seria o compartilhamento de fotos com o nome dos desaparecidos em painéis luminosos de metrô, terminais de ônibus, aeroportos e em TVs, ainda que não em todo o período, mas em alguns momentos.
Outra medida seria criar ou utilizar algum banco de dados, alimentado pelas secretarias municipais e estaduais de saúde, de segurança e outras com o DNA de todas as pessoas que são sepultadas sem identificação, atribuindo-lhes um único número armazenado junto ao material genético. Deve ser, presumidamente, permitido a todos os interessados realizar exames para aferição. O banco de dados realizaria, obrigatória e periodicamente, um batimento automático entre os dados dos desaparecidos e os dos interessados que disponibilizassem seus DNAs.
Além disso, ao publicar as informações neste site, deveria haver uma autorização automática dos familiares para o compartilhamento por quem se interessar. Para quem procura uma pessoa, seria um esforço mínimo para um resultado que traria alívio, paz e um desfecho. A dor continuaria, mas bem menor por se chegar a uma solução.
Outra medida importante seria a expansão da participação de empresas, com a exibição de fotos em suas embalagens e nos locais de grande circulação de pessoas, como rodoviárias e aeroportos, além de anúncios em serviços de som, especialmente com relação aos desaparecidos mais recentes.
Precisaria de muita empatia de todos os segmentos da sociedade e uma ação efetiva dos governos para trazer esse alívio a milhares de pessoas. Considerando-se que, no Brasil, mais de oitenta mil pessoas desaparecem por ano, esse número se multiplica por aqueles que ficam no maior sofrimento do mundo, muitas vezes eterno.
Pedro Cardoso da Costa
“NÃO EXISTE DEMOCRACIA ONDE O VOTO É OBRIGATÓRIO”












