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Coluna de opinião • Política e sociedade
PAPUDISKINA

Por que não voto no PT, embora concorde com algumas bandeiras da esquerda

Defender programas sociais e direitos trabalhistas não significa concordar com o projeto político do PT. Minhas divergências envolvem justiça, liberdade, valores democráticos e o papel do Estado.

Nunca precisei recorrer ao Bolsa Família nem recebi benefícios previdenciários do INSS. Entretanto, reconheço a importância dos programas sociais para quem realmente precisa. Também defendo a livre associação, inclusive sindical, por considerar os sindicatos independentes importantes para a proteção dos trabalhadores.

Não vejo contradição nisso. Estar à direita não significa rejeitar a proteção social, assim como reconhecer boas propostas da esquerda não me obriga a votar no PT.

Programas sociais devem promover independência, não dependência

Defendo que o Estado assegure condições dignas de sobrevivência às pessoas necessitadas, mas que a assistência seja, sempre que possível, uma ponte para a independência financeira.

Minha proposta seria garantir um benefício de, no mínimo, um salário mínimo, com contrapartidas para quem estiver em condições de trabalhar. Essas pessoas poderiam prestar serviços de interesse público, conforme suas aptidões, na conservação de praças, manutenção de espaços comunitários, apoio administrativo em repartições e autarquias, entre outras atividades. Ou seja: o povo precisa de obter seu sustento digno, onde o estado reserva cotas de trabalho para quem está desempregado, garantindo-lhes um emprego provisório até que encontrem algo melhor.

Para ampliar a experiência profissional e evitar a acomodação, ninguém permaneceria no mesmo local de trabalho por mais de um ano (no caso de beneficiários). Também seria obrigatória a participação em cursos técnicos profissionalizantes, preferencialmente voltados às necessidades do mercado. Quem ultrapassasse 25% de faltas injustificadas nas aulas presenciais perderia o benefício, assegurado o direito de defesa.

Pessoas impossibilitadas de trabalhar continuariam protegidas, sem exigências incompatíveis com suas condições. O programa também precisaria assegurar atividades compatíveis com os cursos e impedir que beneficiários substituíssem trabalhadores regularmente contratados.

Essa é a assistência social que defendo: proteção para quem precisa e oportunidades concretas para quem pode superar a dependência.

Primeira divergência

O rigor contra adversários e a oportunidade perdida da reconciliação

Uma das minhas maiores divergências com o PT é a maneira como seus dirigentes e parte da militância tratam adversários políticos. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 são emblemáticos.

Não defendo depredações, violência ou ataques às instituições. Quem praticou crimes deve responder por seus atos, mas com individualização das condutas e proporcionalidade das penas.

Questiono condenações que considero excessivas, especialmente quando não se distingue adequadamente a responsabilidade de quem participou de manifestações daquela de quem efetivamente praticou violência, depredação ou outros crimes.

Entre os envolvidos havia mães de família, mulheres religiosas e integrantes de círculos de oração. A religiosidade não torna ninguém inocente, mas uso esse argumento porque, de verdade, muita gente foi condenada apenas por estar no local e sem qualquer vínculo com os atos depredatórios.

Observando o clamor popular e a injustiça cristalizada, Lula poderia ter liderado um movimento de reconciliação nacional, defendendo uma anistia politicamente negociada, respeitados os limites constitucionais, a reparação dos danos e o compromisso com a democracia.

Acredito que esse gesto teria demonstrado grandeza política e sensibilizado milhões de brasileiros. Entretanto, prevaleceu no campo governista a resistência à anistia, desperdiçando, na minha avaliação, uma oportunidade histórica de pacificação. Aliás, a esquerda foi cruel, defendendo que tais indivíduos, segundo alguns deles, “apodrecessem na cadeia”.

Segunda divergência

O identitarismo e os limites da liberdade numa sociedade democrática

Uma das minhas divergências com determinados movimentos identitários está na dificuldade que esses movimentos de esquerda tem de compreender que viver em democracia significa reconhecer não apenas os próprios direitos, mas também os limites necessários à proteção das liberdades alheias.

Alguns ativistas defendem que, se casais heterossexuais podem receber a bênção matrimonial de um padre, pastor, rabino ou celebrar o casamento segundo os ritos islâmicos, casais do mesmo sexo deveriam ter acesso às mesmas cerimônias, independentemente das doutrinas religiosas. Considero equivocada essa pretensão quando envolve obrigar instituições religiosas a realizar ritos contrários às suas convicções.

Como cristão, defendo integralmente o direito de pessoas homossexuais se casarem civilmente, constituírem famílias e viverem conforme suas convicções. O fato de minha religião estabelecer determinados princípios para seus membros não me autoriza a impô-los a quem não compartilha da mesma fé.

Entretanto, a reciprocidade é indispensável. Assim como uma igreja não deve interferir na vida civil de quem não segue sua doutrina, ninguém deveria poder obrigá-la a abandonar seus próprios preceitos religiosos.

Compreendo que alguém possa sentir-se excluído por não ter acesso a determinada cerimônia religiosa. Esse sentimento merece respeito. Mas nem todo desejo individual pode converter-se em obrigação para terceiros. A convivência democrática exige reconhecer que existem diferenças legítimas entre direitos civis, assegurados pelo Estado, e práticas confessionais, regidas pelas tradições de cada religião.

Um casamento civil é um direito garantido pelo ordenamento jurídico. Já um sacramento ou rito matrimonial pertence à esfera religiosa e possui significados, requisitos e regras próprios.

A Constituição protege tanto a igualdade perante a lei quanto a liberdade de crença, culto e organização religiosa. São garantias que precisam coexistir, sem que uma seja utilizada como justificativa automática para eliminar a outra.

Naturalmente, essa autonomia não concede às religiões autorização para discriminar ilegalmente, praticar violência ou descumprir obrigações civis. Mas também não permite ao Estado determinar indiscriminadamente como uma comunidade deve interpretar seus textos sagrados ou celebrar seus rituais.

Se uma religião só pudesse exercer suas práticas mediante aprovação das convicções de quem não pertence a ela, já não estaríamos diante de plena liberdade religiosa, mas de uma uniformização ideológica imposta de fora para dentro.

Defendo uma sociedade em que cristãos, judeus, muçulmanos, adeptos de outras religiões e pessoas sem religião desfrutem dos mesmos direitos civis, preservando, dentro dos limites constitucionais, suas particularidades e formas legítimas de organização.

A democracia não exige que todos compartilhem dos mesmos valores. Exige que aprendamos a conviver com diferenças, inclusive aceitando que determinadas práticas de um grupo não estejam disponíveis a quem não aceita ou não preenche os requisitos internos daquela tradição.

O direito de uma pessoa viver livremente conforme suas convicções não inclui o poder de obrigar outra a renunciar às próprias. A liberdade que reivindicamos para nós precisa ser igualmente reconhecida aos demais.

Terceira divergência

A postura diante de movimentos extremistas internacionais

Também discordo de setores da esquerda que demonstram dificuldade para condenar organizações extremistas quando elas se apresentam como adversárias de governos ocidentais. Refiro-me especialmente ao Hamas e ao Hezbollah.

É legítimo defender os direitos dos palestinos, criticar ações do governo israelense e exigir respeito ao direito internacional. O que considero inaceitável é relativizar ataques deliberados contra civis, sequestros e práticas terroristas por afinidade política ou ideológica.

Da mesma forma, violações cometidas por qualquer Estado devem ser condenadas, independentemente de suas alianças. Não dá para defender tudo que Israel faz, como a violência dos colonos na Judeia e Samaria (hoje Cisjordânia), lar atual de milhões de palestinos que não tem culpa de aquela terra no passado estar desocupada e coube a eles ocuparem, após a diáspora dos judeus a dezenas de séculos passados.

Quarta divergência

O excesso de Estado e a concentração do poder econômico

Defendo um Estado forte em áreas essenciais, como saúde, educação, segurança, saneamento, infraestrutura e proteção das pessoas vulneráveis. Mas não acredito que o desenvolvimento dependa da expansão permanente da presença estatal na economia.

A iniciativa privada produz riquezas, gera empregos, investe e assume riscos. O governo precisa favorecer esse ambiente, especialmente para os pequenos negócios, frequentemente prejudicados pela burocracia e pela carga tributária.

Também considero perigosa a concentração excessiva de decisões econômicas nas mãos do Estado, pois amplia os riscos de clientelismo e interferência política.

Quero um país onde as pessoas possam prosperar pelo trabalho, pela criatividade e pelo empreendedorismo, sem depender de favores governamentais.

Não sou contra a esquerda. Tenho divergências com o PT.

Reconheço políticas sociais importantes desenvolvidas por governos petistas e a contribuição histórica dos sindicatos e movimentos populares para a conquista de direitos. Entretanto, esses méritos não tornam o partido imune a críticas.

Minha trajetória política também não foi construída exclusivamente à direita. Já votei em Lula, em Dilma Rousseff e fui filiado ao Partido Socialista Brasileiro.

Hoje penso de maneira diferente, mas continuo reconhecendo boas ideias independentemente de sua origem.

O que espero de qualquer governo é respeito às liberdades, justiça proporcional, responsabilidade econômica e compromisso com a melhoria das condições de vida da população.

Não quero um país onde os pobres dependam eternamente de benefícios, os trabalhadores precisem de proteção política para prosperar e os adversários sejam tratados como inimigos a serem eliminados.

Quero um Brasil onde a assistência ofereça oportunidades, a educação permita ascensão social, o trabalho seja valorizado e o voto popular continue sendo o instrumento legítimo da alternância de poder.

Por essas razões, embora concorde com algumas bandeiras historicamente defendidas pela esquerda, não voto no PT.

Afinal, reconhecer os acertos de um partido não significa aceitar seus erros. E discordar de suas ideias não significa desejar o mal de quem pensa diferente.

Daniel Oliveira da Paixão é jornalista desde 1985, com passagens por jornais de São Paulo, Espírito Santo e Rondônia.

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