Pular para o conteúdo
Colunas Espaço Aberto

Coluna ESPAÇO ABERTO – A política pode ser dura. A crueldade, não

5 minutos de leitura

Confira as notícias do dia, por Cícero Moura.

DEBATE
A política é um ambiente de cobrança. Candidato precisa responder, enfrentar adversários, sustentar suas ideias e demonstrar preparo.

Foto: Redes Sociais / RemaTV

PREPARO
Quem entra numa disputa pelo Governo de Rondônia sabe, ou deveria saber, que estará permanentemente sob avaliação.

DETALHE
Mas há uma diferença enorme entre criticar um candidato e fazer chacota de uma possível condição de saúde.

DETALHE 2
A declaração de Hildon Chaves sobre seu desempenho nos primeiros debates abriu justamente essa discussão.

Foto: Redes Sociais / RemaTV

SAÚDE
O ex-prefeito reconheceu que esteve abaixo do que esperava, admitiu dificuldades de concentração e episódios de esquecimento e levantou a possibilidade de essas dificuldades estarem relacionadas às sequelas das vezes em que contraiu Covid-19.

DESCONTRAÍDO
A declaração foi feita de maneira descontraída, inclusive com a brincadeira de que seria o “tiozão dessa campanha”.

OBSERVAÇÃO
Hildon pode ser criticado por ter ido mal nos debates. Pode ser questionado por, talvez, decidir não participar de todos eles.

OBSERVAÇÃO 2
Pode-se discordar de sua estratégia eleitoral, de suas propostas e de sua administração como prefeito. Tudo isso é legítimo e faz parte da democracia.

OBSERVAÇÃO 3
O que não parece razoável é transformar eventuais lapsos de memória em piada, fazer ilações sobre seu estado de saúde ou tentar construir, a partir disso, uma narrativa de incapacidade.

REFLEXO
É preciso colocar um pouco de civilidade nessa disputa. Não é desculpa inventada pela política. Existe uma questão científica que não pode ser ignorada.

COMPROVADO
A Covid-19 não termina necessariamente quando desaparecem os sintomas da fase aguda.

COMPROVADO 2
Algumas pessoas desenvolvem a chamada condição pós-Covid, que pode apresentar manifestações cognitivas, entre elas dificuldades de atenção, concentração e memória.

COMPROVADO 3
A própria Organização Mundial da Saúde reconhece a chamada disfunção cognitiva entre os possíveis sintomas da condição pós-Covid.

Foto: Redes Sociais / OMS

PARTICULARIDADE
Isso não significa que todo esquecimento de Hildon seja causado pela Covid, e ninguém pode fazer um diagnóstico médico olhando para um debate eleitoral.

HILAÇÃO
Mas significa que a explicação apresentada pelo candidato não deve ser tratada automaticamente como invenção ou desculpa. É uma possibilidade reconhecida pela medicina e que merece, no mínimo, respeito.

DISSE
O próprio Hildon afirma ter contraído a doença várias vezes e lembra que esteve diretamente envolvido nas ações de enfrentamento da pandemia quando comandava Porto Velho.

EXAME
Se ele acredita que aquelas infecções deixaram consequências, cabe a ele e aos profissionais que eventualmente o acompanhem avaliar isso.

JULGAMENTO
Não cabe a adversários, comentaristas de ocasião ou usuários de redes sociais diagnosticar, condenar ou ridicularizar.

INSENSIBILIDADE
Uma coisa é cobrança. Outra é crueldade. Há algo particularmente desagradável em determinadas reações que começam a aparecer quando o assunto envolve saúde.

VEREDITO
Alguns parecem acreditar que, porque uma pessoa decidiu disputar uma eleição, deixou de ser humana. Não deixou.

CONDIÇÃO
Hildon é candidato e, portanto, está sujeito à cobrança pública. Mas continua sendo uma pessoa que pode adoecer, esquecer, cansar, envelhecer e eventualmente apresentar limitações como qualquer outro ser humano.

DIFERENÇA
Aliás, exigir que um candidato tenha bom desempenho é completamente diferente de comemorar ou debochar de uma eventual dificuldade cognitiva.

DIFERENÇA 2
O eleitor tem todo o direito de dizer: “Hildon foi mal no debate”. O que não deveria fazer é dizer: “Hildon está assim porque está doente”, sem qualquer conhecimento médico.

Foto: Redes Sociais / RemaTV

CONSIDERAÇÃO
Uma coisa é avaliação política. A outra é irresponsabilidade. O “tiozão” merece respeito.

ENVELHECEU
A frase usada pelo próprio Hildon — “sou o tiozão dessa campanha” — foi uma maneira bem-humorada de reconhecer que dez anos se passaram desde sua primeira eleição para a Prefeitura de Porto Velho.

DÉCADA
E dez anos fazem diferença. Mudam a idade, a experiência, o comportamento e até a maneira como uma pessoa encara uma disputa eleitoral.

JOVEM
O Hildon de 2016 era um candidato diferente. Mais combativo, mais agressivo no discurso e dono de uma retórica que ajudou a construir sua imagem naquela eleição.

AMADURECEU
Hoje ele diz estar mais preparado. É exatamente isso que o eleitor deve avaliar. Está mais preparado? Demonstra conhecimento?

PREPARO
Tem propostas consistentes? Tem experiência administrativa? Consegue enfrentar os problemas de Rondônia? Tem capacidade de liderar o Estado?

AVALIAÇÃO
Essas são as perguntas que importam. Não se Hildon esqueceu uma informação durante alguns segundos. A campanha não pode perder a humanidade.

RESPEITO
Há uma regra que deveria valer para todos os lados dessa eleição: adversário político não é inimigo. Pode-se combater uma candidatura sem destruir a pessoa.

RESPEITO 2
Pode-se apontar erros sem humilhar. Pode-se questionar a capacidade administrativa sem especular sobre a saúde. Pode-se cobrar presença nos debates sem fazer piada com lapsos de memória.

RESPEITO 3
A política brasileira já está contaminada por agressividade suficiente. Não precisamos acrescentar a ela a crueldade de transformar uma possível sequela de uma doença que atingiu milhões de pessoas em motivo de entretenimento.

OPÇÃO
Hildon fez uma escolha ao entrar novamente numa disputa eleitoral. Sabia que seria cobrado. E deve ser cobrado.

POSTURA
Mas ninguém precisa abrir mão da decência para fazer oposição. No debate eleitoral, vale a crítica. Vale a ironia. Vale a cobrança. Vale até a provocação.

ATAQUE
O que não vale é usar a saúde de alguém como arma. Porque amanhã pode ser um adversário. Depois, um aliado. E, em algum momento, pode ser qualquer um de nós. A política pode ser dura. A crueldade, não.

FRASE
Problemas de saúde não precisam ser provados publicamente para merecer respeito.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *