Quando o telefone toca depois da reportagem
Antes de escrever a reportagem que provocou toda essa discussão, fiz o que se espera de qualquer jornalista responsável: entrei no SAPL da própria Câmara Municipal, consultei as tramitações e li os projetos de lei envolvidos no caso. Conferi datas, movimentações e informações disponíveis publicamente. Não escolhi vereador para atacar, não inventei atraso e não publiquei acusação tirada da cartola. A crítica nasceu depois da apuração, e não antes dela.A população não pode ser prejudicada por divergências políticas. A população precisa de boas estradas, serviços de qualidade no campo e na cidade. A Câmara pode ser muito mais eficiente.
Eu respeito vereador. Respeito o mandato, respeito o Poder Legislativo e, acima de tudo, respeito a legislação.
Mas respeito é uma avenida de mão dupla.
Jornalista também tem função, direitos, deveres e limites.
Eu não tenho o direito de acordar pela manhã, escolher um vereador qualquer e decidir fustigá-lo por pura implicância. Não seria jornalismo.
Mas, se existem fatos, documentos públicos e consequências concretas que justificam uma cobrança crítica, coerente e respeitosa, tenho não apenas o direito de fazê-la, como esse é justamente um dos papéis do jornalismo.
Da mesma forma, vereador nenhum deveria tentar intimidar jornalista porque não gostou de uma reportagem.
Não gostou?
Tudo bem.
A democracia inventou uma coisa maravilhosa chamada
contraponto.
E nem é complicado.
Hoje as Câmaras Municipais mantêm assessorias, gabinetes estruturados e profissionais pagos com dinheiro público justamente para auxiliar os parlamentares na comunicação com a sociedade.
O procedimento mais natural do mundo seria o vereador dizer:
Pronto.
Civilizado, democrático e profissional.
A assessoria pode consultar documentos, ouvir o vereador, organizar datas, apresentar argumentos e encaminhar uma nota. Se a crítica estiver errada, demonstra-se o erro. Se houver justificativa, ela é apresentada. Se houve falha, também não existe vergonha alguma em reconhecê-la e dizer que, daqui para frente, haverá mais cuidado.
O que parece muito menos razoável é telefonar para jornalista para reclamar porque a notícia desagradou.
Jornalismo não funciona assim.
Jornalista tem profissão.
Cada qual deve respeitar os limites do outro.
E no episódio que originou esta discussão existe uma questão ainda mais importante:
tempo.
A chuva não consulta o Regimento Interno
Na região de Cacoal, vereador não pode fingir que desconhece o calendário.
Todo mundo sabe que estrada vicinal precisa ser recuperada principalmente durante a estiagem. Todo mundo sabe que, quando as chuvas chegam, a janela de trabalho diminui drasticamente.
Por isso, segurar durante meses um projeto necessário à execução de determinados serviços e liberá-lo quando o período chuvoso já se aproxima pode até atender ao calendário legislativo, mas dificilmente atende ao calendário da natureza.
O barro também não.
E há situações em que aprovar o projeto depois de longa demora não apaga o prejuízo produzido pela espera.
Às vezes, quando finalmente se abre a porteira, o boi já foi embora.
Esse é o ponto.
Não estou dizendo que vereador deve votar tudo correndo. Muito menos que deve funcionar como carimbador de projetos do Executivo.
Fiscalize.
Questione.
Peça documentos.
Chame técnicos.
Rejeite aquilo que considerar ruim.
Mas também é preciso entender que determinados projetos possuem uma janela administrativa. Passada essa janela, mesmo a aprovação posterior pode chegar tarde demais.
E, nesse caso, quem paga não é só as instituições públicas como entes.
É o produtor rural que continua enfrentando estrada ruim.
É a comunidade que esperava determinado serviço.
É o cidadão.
Às vezes, admitir é melhor do que tergiversar
Por isso, talvez a melhor resposta dos vereadores criticados nem seja uma guerra com ninguem.
Pode ser algo muito mais simples:
A população provavelmente receberia essa postura muito melhor do que qualquer tentativa de transformar uma reportagem crítica em conflito pessoal.
E, se algum vereador entender que existem fatos capazes de justificar a demora, continuo dizendo a mesma coisa:
Publicamos.
Democracia também é isso.
O jornalista pergunta.
O político responde.
Os documentos falam.
E o cidadão tira suas próprias conclusões.
Só não parece saudável trocar esse processo por telefonemas de cobrança e tentativas de constrangimento.
Porque vereador não deve ser perseguido por jornalista.
Mas jornalista também não pode ser intimidado por vereador.
No fim das contas, cada um precisa respeitar a lei, cumprir sua função e aprender a conviver com aquilo que toda democracia inevitavelmente produz de vez em quando:
uma crítica que a gente preferia não ter recebido.
Veja a reportagem original clicando aqui
Coluna de opinião de Daniel Oliveira da Paixão
