Histórias do jornalismo em Rondônia
Personagem: Montezuma Cruz, jornalista
Aconteceu no Pontal”, “Território Dourado”, “Do jeito que vi”, e uma só assinatura: Montezuma
Década de 1980. Eu trabalhava para a “Folha de São Paulo” e quando precisava me deslocar requeria o necessário para cumprir a missão. Um dia recebo uma pauta para cobrir sucessivos choques entre indígenas Paiter Suruí, na região de Cacoal. A verba da “Folha” chegou pelo Bradesco, na agência do Edifício Rio Madeira, onde recebi o valor. Daí fui ao Aeroporto Caiari (oficialmente “Salgado Filho) onde contratei o voo.
Bimotores estavam noutros voos, fretei um teco-teco monomotor. Era 1976, e daquela vez levei comigo Lourdes Teodoro, com quem fui casado. À frente, um jovem piloto com cara de menino, menos de quinhentas horas de voo, e seu copiloto; nos bancos traseiros, eu e Lourdes.
Acontece que o mono transportava dois galões de gasolina, atrás de nossas cabeças. Lourdes percebeu o drama quando sobrevoávamos Jaru. Um galão mal fechado começou a derramar gasolina sobre os seus cabelos compridos.
Chovia, o jovem piloto furava nuvens CB, relâmpagos nos angustiavam. Uma simples faísca elétrica explodiria o avião, nos matando carbonizados.
Sorriso amarelado, Lourdes mirava meus olhos que igualmente traduziam angústia. Só Deus na causa.
O rádio falhava, aumentando o temor de que ocorreria o pior. Restava-nos, enfim, confiar na destreza do piloto que pousaria na pista esburacada de Riozinho (Cacoal) no finalzinho da tarde.
Olhamos para os bancos, vimos gasolina esparramada, e os cabelos de Lourdes “suplicando” um banho. Coitada, isso só aconteceu umas duas horas depois. Eu precisava ouvir o sertanista Apoena Meireles, o diretor de operações da Funai, coronel Nestor, e dois líderes Suruí – creio que Anine e Idiaraga. Em Riozinho ficava a sede do Parque Indígena do Aripuanã.
Escapamos de morrer no voo arriscado; aliviados, fomos à noite saborear filé à cubana na Churrascaria Gaúcha, em Cacoal. No final da década de 1970, a velha reportagem reservava também agruras aos correspondentes e enviados especiais. Vivi esse período, algumas vezes em companhia do colega Lúcio Albuquerque noutros voos impressionantes. ()
() Montezuma Cruz, ex-Folha e mais de 10 jornais de S/Norte do país, é escritor

