Maioria dos pacientes tem diagnóstico tardio da doença; médicos explicam que isso ocorre porque o câncer avança silenciosamente e país não tem política de rastreio

Imagem Redes Sociais
Por Poliana Casemiro/G1
A doença é o tipo de câncer que mais mata no Brasil, são 31 mil mortes por ano. Ela avança quase sem dar sinais e quando o paciente finalmente descobre, quase sempre já é um caso grave.
Dados do Painel de Oncologia, que concentra dados do SUS, analisados pela SBCO, mostram que 87% dos pacientes recebem o diagnóstico quando a doença já está nos estágios três e quatro, considerados os mais avançados.
“Alguns pacientes chegam ao diagnóstico em um estado tão fragilizado que não conseguem fazer o tratamento. Isso acaba impactando na letalidade”, explica o cirurgião torácico Erlon Ávila Carvalho.
De acordo com especialistas ouvidos pelo g1, o cenário é esse por alguns motivos:
- A doença é silenciosa e avança sem que o paciente perceba os sintomas;
- O câncer de pulmão é um tipo mais agressivo de câncer.
➡️ Há ainda um outro fator agravante. No Brasil não há rastreamento para a doença no SUS, como há para outros tipos de câncer.
O Inca está à frente de um estudo para entender como aplicar isso ao país, mas especialistas apontam que, ainda que isso seja implementado, há desafios pelo perfil da doença.
O tabagismo segue sendo o principal responsável. Quem fuma tem até 30 vezes mais risco de morrer de câncer de pulmão do que quem nunca fumou, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
O que os dados mostram
O estadiamento é a forma como a medicina classifica o quanto um câncer avançou pelo corpo. Vai do estágio 0, quando o tumor é muito inicial e está restrito a um pontinho do órgão, até o estágio 4 — que é o mais avançado. Para isso, é necessário exame.
De acordo com a análise da SBCO com os dados do SUS, entre 2020 e 2025 há 49 mil registros de estadiamento para câncer de pulmão. Entre os registros, a maior parte dos diagnósticos está nos estágios mais graves:
- Estágio 0 (tumor muito inicial): 1.473 registros — 3,0%
- Estágio 1 (tumor pequeno e localizado): 1.975 registros — 4,0%
- Estágio 2 (tumor maior, mas ainda restrito à região): 2.499 registros — 5,1%
- Estágio 3 (já invadiu estruturas ou linfonodos próximos): 11.704 registros — 23,8%
- Estágio 4 (com metástase, espalhado para outras partes do corpo): 31.467 registros — 64,1%
Ou seja, somados os estágios mais graves (3 e 4) eles representam mais de 87% dos registros de estadiamento no SUS.
De acordo com os especialistas, essa é apenas uma parte da realidade, já que nem todos os pacientes são submetidos ao estadiamento, o que pode alterar a realidade dos dados. No entanto, os especialistas reforçam que o índice é sempre alto por quão silenciosa a doença pode ser.
“O que mais vemos é o paciente chegando com o diagnóstico grave e que nos dá poucas possibilidades de tratamento porque a doença já progrediu demais”, explica o cirurgião torácico Erlon Ávila Carvalho, que também é coordenador da comissão de tumores torácicos da SBCO.
Esse é um dos motivos, segundo o médico, para o câncer de pulmão ser hoje o câncer com a maior letalidade no país. De acordo com dados do Inca, são 31 mil mortes por ano no país.
A janela que se fecha antes do diagnóstico
O câncer de pulmão costuma ser assintomático nas fases iniciais. Um nódulo de dois centímetros, por exemplo, não causa nenhum sintoma perceptível. Assim, a doença passa pelos estágios 1, 2 e parte do 3 sem se manifestar — e é só perto do estágio 4 que os primeiros sinais costumam aparecer.
➡️ Quando aparecem, também enganam: tosse e falta de ar, os sintomas mais comuns, são facilmente confundidos com doenças pulmonares benignas, como a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crônica), comum entre fumantes e ex-fumantes. É frequente o paciente atribuir o cansaço à idade ou ao sedentarismo, sem associá-lo à doença.
De acordo com o médico Erlon Carvalho, a doença, à medida que avança, libera substâncias inflamatórias no sangue que reduzem o apetite — o que leva à perda de peso e, geralmente, é esse emagrecimento que faz o paciente procurar ajuda médica. Nesse ponto, o tumor já está em estágio avançado.
De acordo com a SBCO, o melhor perfil de tratamento para o paciente é descobrir cedo e poder passar pela cirurgia para a retirada do tumor.
No entanto, segundo os dados do Inca, apenas 30% dos pacientes passaram pela cirurgia como tratamento de forma isolada no país de acordo com os dados mais recentes do Inca, que são de 2022.
Para que isso seja possível, é preciso que o tumor seja descoberto cedo para ser retirado com a área impactada pela doença.
“É muito triste porque o paciente perde a chance da janela de tratamento com a cirurgia, que oferece melhores chances, por não conseguir diagnosticar antes”, explica o médico oncologista Erlon Ávila Carvalho.
O exame indicado para o rastreio é a tomografia computadorizada de baixa dosagem, que usa menos radiação que uma tomografia convencional para detectar nódulos suspeitos antes que causem sintomas.
Até este ano, a indicação era restrita a fumantes ou ex-fumantes entre 50 e 80 anos, com carga tabágica — o equivalente ao consumo somado ao longo dos anos — superior a 20 maços-ano, e que tivessem parado de fumar há menos de 15 anos.
Agora, entidades médicas americanas de referência em pneumologia atualizaram a recomendação e retiraram esse critério de tempo desde a interrupção do hábito. Na prática, hoje são elegíveis para o exame todos os fumantes e ex-fumantes entre 50 e 80 anos com carga tabágica igual ou superior a 20 maços-ano, independentemente de há quanto tempo pararam de fumar.
Hoje, o país não tem esse rastreamento no SUS. No início deste ano, uma pesquisa do Inca começou a analisar como implementar o sistema na rede pública. O médico epidemiologista que lidera o estudo pelo instituto, Arn Migowski, explica que colocar o rastreamento em prática é um desafio maior do que apenas oferecer o exame.
Um deles é garantir que toda a cadeia de cuidado depois do exame, da biópsia ao tratamento, seja assegurada ao paciente com diagnóstico confirmado e que isso funcione em cadeira. Além de evitar que o rastreamento impeça a adesão aos programas de abandono do tabagismo.
“A gente tem um desafio pela dimensão do país, pela complexidade da doença. Mas ainda que haja um rastreamento é preciso entender que isso não vai frear os números. Nos Estados Unidos, onde há exames de acompanhamento, 75% dos casos ainda são descobertos em estágios graves”, explica Migowski.
O Ministério da Saúde informou que aguarda o resultado dos estudos, mas que evidências internacionais indicam que o rastreamento da doença a populações de alto risco, pode reduzir significativamente a proporção de diagnósticos em estágios avançados — de cerca de 90% para 30% dos casos. A pesquisa, liderada pelo Inca, vai durar dois anos.
Disse ainda que, no SUS, o tratamento do câncer de pulmão pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, entre outras terapias para grupos específicos de pacientes, conforme as diretrizes clínicas e as tecnologias disponíveis.

Os riscos do tabaco e os benefícios para quem decide parar de fumar — Foto: Arte/g1















