Coluna PONTO CRÍTICO – Pedágio vira ringue eleitoral e BR-364 segue pagando a conta da omissão de políticos

Coluna Ponto Crítico – Por Felipe Corona

Audiência pública descamba para espetáculo eleitoral, enquanto defensores de última hora tentam transformar atraso político em indignação conveniente

Baixaria

Faltou muito pouco para a audiência sobre as tarifas do pedágio na BR-364 sair da tribuna direto para o braço, nesta semana, na OAB. O clima azedou em vários momentos e só não terminou em pancadaria graças à tradicional tropa do “deixa disso”, chamada às pressas para separar militantes que já confundiam debate público com torcida organizada.

Baixaria 2

O espetáculo foi constrangedor, e acima de tudo, completamente desconectado do objetivo central da reunião. O que deveria ser uma discussão técnica sobre tarifas, contratos e impactos econômicos virou um campeonato de gritaria, ataques políticos e demonstrações performáticas de indignação.

Conveniência

A política, desta vez, não apenas rondou o ambiente. Entrou pela porta da frente, sentou na mesa principal e tomou conta do microfone.

Conveniência 2

Parlamentares transformaram a audiência em arena eleitoral antecipada. Houve mais disputa de narrativa do que busca por solução concreta. Em alguns momentos, parecia reunião de torcida em final de campeonato: todo mundo berrando ao mesmo tempo e ninguém efetivamente interessado em ouvir.

Show de horrores

E o sinal que fica é preocupante. Se ainda estamos relativamente distantes da eleição e o ambiente já alcança esse nível de histeria política, o que vem pela frente promete menos racionalidade e mais fanatismo embalado em discurso de ocasião.

Show de horrores 2

Também seria ingenuidade colocar toda a culpa apenas sobre a militância exaltada. Os próprios agentes políticos foram os primeiros a empurrar o debate para o campo eleitoral.

Meia-boca

O deputado estadual delegado Camargo (Podemos), por exemplo, apresentou dados, planilhas e questionamentos consistentes sobre a modelagem tarifária. Trouxe informações relevantes, apontou contradições e fez críticas técnicas importantes. Mas acabou sucumbindo à tentação clássica do período pré-eleitoral: aproveitou a audiência para ampliar o tom contra o governo e transformar parte da discussão em embate político.

Mais omissão

A ausência do governo Marcos Rocha (União Brasil) em um debate dessa dimensão realmente chama atenção. Mas transformar a audiência em palanque também não ajuda a explicar por que o motorista rondoniense continua pagando tarifas consideradas abusivas enquanto enfrenta buracos, filas de “Pare e Siga” (durante o maior fluxo de veículos e não à noite) e uma rotina diária de transtornos.

Na mesma

No fim das contas, o pedágio permaneceu exatamente onde começou: caro, polêmico e sem solução concreta apresentada. O que avançou mesmo foi o volume da retórica.

Vozes

Sob a condução do senador Marcos Rogério (PL), a audiência reuniu representantes importantes do setor produtivo na sede da Ordem dos Advogados do Brasil. O objetivo era recolocar no centro do debate um tema que já escapou das planilhas e entrou definitivamente no humor do eleitorado: o peso das tarifas de pedágio sobre a economia de Rondônia.

Reclamações

Com a presença do diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Guilherme Theo Sampaio, o setor produtivo mandou um recado direto: os custos atuais estão estrangulando a competitividade do estado.

Custos

Hoje, um caminhão pode desembolsar cerca de R$ 2,5 mil apenas em pedágio. Quando se soma combustível, tributos, manutenção e frete, o resultado é previsível: produto mais caro e perda de competitividade.

Perdas

Representantes do agronegócio afirmaram que algumas transportadoras já estudam reduzir operações em Rondônia e migrar parte da logística para estados vizinhos, como Mato Grosso e Pará, onde o custo operacional é menos agressivo.

Tarde demais

O presidente da Associação dos Pecuaristas de Rondônia, Adélio Barofaldi, foi direto ao ponto ao classificar a audiência como “uma reunião com três anos de atraso”. E talvez essa tenha sido a frase mais honesta. Porque esse é justamente o ponto mais incômodo do debate.

Tarde demais 2

Agora surgem vídeos indignados de alguns poucos políticos, discursos inflamados e parlamentares vestindo a fantasia de “defensores do povo” como se tivessem acabado de descobrir a existência da BR-364.

Paladinos da moral

O deputado federal Lúcio Mosquini e o senador Jaime Bagattoli aparecem em gravações carregadas de indignação cuidadosamente ensaiada, cobrando providências e apontando falhas no modelo da concessão.

Paladinos da moral 2

Tudo muito bonito. Tudo muito revoltante. Tudo muito cinematográfico. Mas fica a pergunta inevitável: onde estavam quando a concessão ainda estava sendo construída? Onde estavam quando havia espaço para pressionar, questionar cláusulas, discutir tarifas e tentar evitar justamente os problemas que hoje dizem combater?

Conveniência

Silêncio. Nenhuma grande mobilização. Nenhum enfrentamento contundente. Nenhuma cruzada pública em defesa da população. E isso não é detalhe. É precisamente o centro do problema. Porque depois que a bomba explode, qualquer político sabe gravar vídeo com cara de indignado.

Fakes

Difícil é agir antes. Mais preocupante ainda é o uso de números pouco claros para sustentar narrativas alarmistas. Mosquini fala em explosão de acidentes e aumento dramático de mortes, mas sem apresentar com transparência a origem consolidada desses dados.

Fakes 2

Em um tema sério como acidentes fatais, estatísticas não podem ser arremessadas ao vento apenas para gerar engajamento político e compartilhamento em rede social. Dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF) mostram um cenário muito mais complexo, que exige análise técnica séria. Não simplificação conveniente.

Verdades

Isso, evidentemente, não significa que a BR-364 esteja em boas condições. Muito pelo contrário. Os problemas são reais, diários e conhecidos por qualquer motorista que precise trafegar pela rodovia. Buracos, lentidão, obras intermináveis, filas quilométricas e sensação constante de insegurança fazem parte da rotina.

Manipulação

Mas transformar o sofrimento da população em peça de marketing político também não resolve absolutamente nada.

Solução

O senador Marcos Rogério, percebendo o desgaste crescente do tema, intensificou a pressão sobre a ANTT e, pela primeira vez, admitiu publicamente um discurso mais pragmático: se as tarifas não forem reduzidas, ao menos que as obras sejam aceleradas e ampliadas.

Solução 2

Talvez seja a primeira manifestação mais próxima da realidade dentro de um debate dominado por discursos inflamados e indignações seletivas.

Hipocrisia

Porque, enquanto políticos disputam protagonismo e gravam vídeos performáticos, a população continua fazendo o que sempre fez: enfrentando a BR-364 todos os dias. E a estrada, ao contrário dos discursos, não funciona no modo campanha eleitoral.

*Esta coluna foi escrita com informações publicadas no mês de maio pelas colunas Resenha Política (escrita por Robson Oliveira) e Espaço Aberto (de Cícero Moura).

**Os sites que publicam esta coluna reservam o direito de manter integralmente a opinião dos seus articulistas sem intervenções. No entanto, o conteúdo apresentado por este “COLUNISTA” é de inteira responsabilidade de seu autor.

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