Entre Tepuis, Tesouros e o Coração Pemón
Fluir y manternerse a flote*
Por Geraldo Gabliel

JAIRO JESUS HERNANDES
Troncal 10 – MIVESUB
Santa Elena de Uairén 8011
BOLIVAR – VENEZUELA
Já seria tempo, hoje, de que Geh Latinus nos contasse algo sobre o país latino-caribenho a República Bolivariana da Venezuela – isso mesmo, esse é o nome oficial da Venezuela – eu ia dizer: – de Maduro, mas me recuso a aceitar que aquele seja um governo legítimo e que represente com orgulho aquele povo guerreiro, de boa índole – massacrado por um sistema opressor.
Prefiro ver a Venezuela no coração e alma de Josué – aquele menino que, vivendo ao lado da Feira de Domingo, em nossa cidade, se fez meu amigo, comemos pastel e caldo de cana na feira, e falávamos em espanhol – relembrando o seu país e a Espanha que sempre vive em mim. Ah! Sarai, a hermanita mais velha de Josué – um tanto ressabiada – nos sondava na conversa e quiosque da feira – ela, apaixonada pela música e séries no estilo K-pop mexicano.
Semana passada, de caminho à Cuiabá, Geh Latinus encontra Dolores e outros três amigos bolivianos… Quis ver a moça provar pela primeira vez um pão-de-queijo (pan de queso). Ofereceu-lhe o quitute com “un vaso de chocolate” – e ficou a espreitar-lhe o semblante enquanto Dolores tomava o seu primeiro bocado: – Wow! És bueno… me gusta! – E assim, naquele instante, marcou-se na vida de Dolores, um momento de gentileza e bienvenida ao Brasil.
– Geh Latinus, você não se propôs a nos contar novidades de uma carta de um amigo que vive noutro país? Alías, outra série de 7 amigos, de 7 continentes…? “-Sim!” – Claro!… Vou contar-lhes esta semana sobre a Venezuela sob a perspectiva de Jairo Hernandes – identificado no top desta crônica. Nas próximas semanas, continuamos com Vera Paiva – desde o Japão; Waldecir Magaiesk – da Polônia; Onisim Chirila – da Romênia; Robério Guarany – do Paraguai; Manoel Sigá – de Guiné Bissau; Velton Batista – da Nova Zelândia; e Guilherme Floripa – do Egito.
Então, bora mudar o tom desta prosa! Comecemos com Jairo – sem mágoas, sem piedade – falando de Venezuela… desde College Park – cidade universitária americana no Estado de Maryland. (Hoje Jairo se abrasileira com amigos no Fogo de Chão – restaurante brazuca em West Virginia)
A conversa com Jairo, chef venezuelano e amigo de poucos dias, começou com risos e receitas – pupusas e tamales – mas logo se transformou em algo maior. Ele vive nos Estados Unidos, mas carrega a sua Venezuela no peito — especialmente a cultura viva que resiste entre os imigrantes – longe da Pátria…Foi em Maryland, durante um intercâmbio multicultural, que Geh e Jairo se conheceram. Desde então, a amizade se alimenta de trocas sinceras fatos e descobertas culturais (e lamentos pela política chavista dominante em seu país).
— “Aqui tudo é diferente, Geh. Mas a nossa essência… essa não muda. A cultura venezuelana vive em cada arepa, em cada música, em cada saudade.” – suspira…
Jairo compartilhou as peculiaridades da sua nova vida e como conecta dois mundos: o das oportunidades na terra do Tio Sam, e o das raízes do seu povo. E foi aí que surgiu o nome de Corina Landaez — uma jovem influenciadora indígena da etnia Pemón, de Kamarata. Para Jairo, ela é mais que uma criadora de conteúdo: é uma ponte viva entre tradição e modernidade – o cartão postal vivo, em pessoa, da Venezuela civilizadamente selvagem – a Natureza viva e ativa, num habitat feito à sua medida. Recomendo! @corinalandaez
Corina compartilha a realidade de seu povo com autenticidade e poesia. Seu lema é um convite à presença:
“La vida es ahora… calma o tormenta, la magia la encuentras tú.”
A curiosidade de Geh Latinus despertou: – quis saber mais sobre os Pemón, sobre a Gran Sabana — esse paraíso de cachoeiras e montanhas sagradas. Os Pemón se autodenominam “gente” e vivem no Parque Nacional Canaima, um dos maiores do mundo. Jairo lembrou que a Venezuela não é apenas um paraíso caribenho com a Ilha de Margarita, mas também um tesouro natural, com montanhas como o Auyantepui — a “montanha do diabo”.
Do topo do Auyantepui despenca o Salto do Anjo (Kerepakupai-Vena) a mais alta queda d’água do mundo – 2535 metros, e uma superfície de 700 km² – citado no filme Up – Altas Aventuras da Disney Pixar como um tipo de paraíso de cachoeiras, Jairo contou que o piloto Jimmy Angel pousou no topo deste Salto em 1937, numa aventura épica que exigiu 11 dias de caminhada para retornar à civilização.
Geh também aprendeu sobre a língua Pemón, com dialetos como Arekuna, Kamarakoto e Taurepang. Para dizer “Olá, tudo bem?”, basta um “Wamopo?” — uma palavra simples que carrega mundos. A culinária é outro elo: o casabe, pão de mandioca crocante, e o tumá, guisado picante – tudo regado a Kachiri – são sabores que contam histórias.
Panorâmica Desde o Topo do Roraima
O Monte Roraima, ou Tepuy Roröimo, é considerado sagrado. Para os Pemón, é a “mãe das águas”, morada dos ancestrais. Lá, o silêncio é respeito. Gritar no topo é desrespeito. Como diz o guia José, no documentário Nas Alturas do Roraima (2020): “A comemoração deve ser interna, meditativa.”
Geh Latinus lembra aqui que o seu primo Marcos Magal esteve em excursão no Monte Roraima que, aliás, é território compartilhado entre Brasil, Venezuela e Guiana – uma tríplice fronteira – sendo um dos poucos lugares do mundo onde se pode estar, ao mesmo tempo, em três países diferentes. Conta também que tem, sobrinhos Macuxis – genérico dos nascidos em Roraima. – Quem sabe um dia Gustavo Sonai vá cavalgar o Monte Roraima – logo ali, no quintal de sua arena de rodeios e provas de laço.
Corina reforçou essa conexão. Contou sobre o turismo como fonte de renda e sobre os “carregadores” — homens e mulheres que transportam até 70 kg por mais de 100 km, usando o Guayare, uma cesta tradicional, acompanhando turistas, extasiados, ao cimo do Roraima.
Lá em cima, no topo do platô, não existem grandes árvores nem animais, por que faz muito sol, e logo em seguida chove. Isso todos os dias. Entre as espécies que sobreviveram, vive um sapinho preto, chamado Oreophinela quelchii – que quando ameaçado vira uma bolinha e sai rolando – símbolo da resiliência (venezuelana) – e, samambaias e plantas carnívoras.
Aquele encontro com Jairo foi mais do que uma despedida ao sabor do refresco Flor de Jamaica (Hibiscus sabdariffa)*, foi uma aula de humanidade, de história e de cultura. E, acima de tudo, foi um lembrete de que, não importa onde estejamos, as conexões que criamos são o que realmente nos definem. (E nos teria dito muito mais…)
“Al mal tiempo, buena cara.” – Refrán Español
*Bebida refrescante produzida com flor de hibiscos – (https://www.youtube.com/watch?v=dWhV05hZSyc)
https://www.youtube.com/watch?v=9PE09JRudd8&list=PL5j-fhFYYJNIAGFR4b0gw8OWrMwNBafcc&t=215s
https://www.suapesquisa.com/paises/venezuela/
https://www.jusbrasil.com.br/artigos/conhecendo-a-venezuela/1185002270 https://pt.wikipedia.org/wiki/Auyantepui















