Olho Turco seria presente de Grego
Pergunte à Cleópatra
Por Geraldo Gabliel

CLEOPATRA D’SMIRNA
Süleymaniye Mosque
Sıddık Sami Onar: 1
34116 ISTANBUL – TÜRKIYE
Do alto da Torre Kulesi alguém observa e ouve atentamente tudo o que acontece na cercania europeia da cidade de Istambul – um ponto medieval, entrelaçado com o clássico e o moderno. Assim, pelo ambiente e inspiração do Universo, Cleópatra de Smirna flutua em Nárnia e vivencia um momento atemporal que lhe abduz à fascinante e épica história da Turquia de tempos imemoriais.
Geh Latinus não estava lá com Cleópatra, mas recebeu um relato tão minucioso e esclarecedor que, em vez de sintetizá-lo numa crônica curta e objetiva, resolve publicar ipsis litteris tal missiva (a emoção é tão real que parece ser ipis verbis mesmo):
Cleópatra em Istambul: Um Encontro de Realidades e Mistérios
Prezado Latinus:
Turquia – Istambul – que cidade fascinante! Uma tapeçaria viva onde a história se entrelaça com a modernidade de forma tão intensa que a cada esquina somos transportados para um tempo e um espaço diferentes. Confesso que cheguei com a imagem de uma terra distante, talvez um tanto exótica nos moldes ocidentais, mas a realidade que se descortina diante dos meus olhos é muito mais rica e complexa.
Ao caminhar pelas ruas de Sultanahmet, a grandiosidade da Hagia Sophia me deixou sem fôlego. Uma antiga igreja ortodoxa que se transformou em mesquita e hoje abriga um museu, testemunha silenciosa de impérios que floresceram e declinaram. A imponência de suas cúpulas e a delicadeza de seus mosaicos bizantinos convivem em harmonia, um lembrete constante da intrincada história desta terra. A poucos passos dali, a Mesquita Azul, com seus seis minaretes esguios apontando para o céu, irradia uma serenidade hipnotizante. A voz grave e melódica do Muezim ecoando pelos céus cinco vezes ao dia, proclamando o “Allahu Akbar” (uma melodia que não precisa de tradução, apenas entrega), envolve a cidade em uma atmosfera de profunda espiritualidade. Confesso que, mesmo não sendo muçulmana, a cadência da oração ressoa em minha alma de uma forma inexplicável.
Navegando por becos e praças, me deparei com uma charada: como poderia uma cidade conter tantos mundos dentro de si? De certo modo, Istambul se parece com Aslam e sua terra encantada – a cidade é uma das Crônicas de Nárnia, um portal entre épocas e crenças.
A Turquia, para além de sua capital cosmopolita, guarda segredos milenares. A menção às Sete Igrejas do Apocalipse despertou em mim uma curiosidade quase palpável. Embora Éfeso, Esmirna e outras cidades/igrejas símbolos estejam relativamente distantes de Istambul, a simples menção a esses locais de relevância bíblico-proféticos traz à tona a importância histórica e religiosa desta região para o Cristianismo. É como se a Páscoa, que celebramos com tanto fervor em nosso Brasil, ganhasse aqui uma dimensão ainda mais ancestral, conectando-nos a raízes profundas da fé. E, por lembrar, aqui não se vê nenhum coelho de páscoa ou ovo de chocolate – mas sim, há um silêncio reverente, onde história e fé se entrelaçam.
Mas Istambul não vive apenas de história e religião. A cidade pulsa com a energia vibrante de seu povo. Os turcos são calorosos, acolhedores e extremamente apaixonados. Descobri, para minha surpresa, um fanatismo quase inexplicável pelo futebol. As cores dos times locais estampam camisetas e bandeiras por toda parte, e as discussões acaloradas nos cafés revelam a importância desse esporte em suas vidas. São fãs da Seleção Canarinho, embora Neymar não esteja no topo da galeria de craques do futebol entre eles.
E por falar em cafés, a experiência de saborear um autêntico café turco é um ritual à parte. Servido em pequenas xícaras, forte e aromático, acompanhado de um doce Lacum açucarado, é uma pausa deliciosa na correria do dia. A tradição de ler a borra do café, uma espécie de charada para desvendar o futuro, adiciona um toque de misticismo e diversão à experiência.
A culinária turca é uma explosão de sabores. Deliciei-me com o famoso Kebab em suas diversas variações, o saboroso Lahmacun, uma espécie de pizza turca, e a doçura irresistível da Baklava, folhada e banhada em calda de mel. Cada garfada é uma viagem sensorial, uma descoberta de temperos e texturas que agradam ao paladar.
Em meio a essa riqueza cultural, deparei-me com o famoso “olho turco”, o Nazar Boncuğu – promessa de proteção contra infortúnios invisíveis – presente em quase todos os lugares, de joias a chaveiros, acredita-se que esse amuleto azul nos protege contra o que chamamos de “mau-olhado”. É curioso como essa crença popular se mantém viva em uma sociedade tão moderna e dinâmica.
E como não mencionar a aura de mistério que paira sobre a cidade, inevitavelmente ligada ao “Assassinato no Expresso do Oriente” de Agatha Christie? Embora a icônica estação de trem Sirkeci, ponto de partida da lendária viagem, tenha se modernizado, ainda é possível sentir um resquício daquela atmosfera de suspense e intriga que imortalizou a escritora britânica.
Istambul é, enfim, uma cidade de contrastes fascinantes. A grandiosidade de suas mesquitas e igrejas convive com a simplicidade acolhedora de seus habitantes. A história milenar se funde com a efervescência da vida moderna. Cleópatra – a Grande Rainha Egípcia – mesmo tendo vivido em um tempo distante, certamente se encantaria com a majestade desta terra que outrora foi Bizâncio e Constantinopla. Minhas impressões são apenas um vislumbre da riqueza que Istambul oferece. Mal posso esperar para continuar explorando seus segredos e compartilhar mais desta jornada com os leitores do nosso jornal.
Atenciosamente,
Cleo: Turista em Istambul.
PS: -Ah! Quanto ao Olho Turco ou Olho Grego, perguntei posteriormente à Cleópatra. E ela me disse:
A principal diferença entre “olho turco” e “olho grego” reside no nome e na região de origem. Na verdade, ambos são o mesmo amuleto, conhecido como “nazar” em turco, e com o mesmo significado e uso: afastar inveja, mau-olhado e energias negativas. O termo “olho turco” é mais usado na Turquia, enquanto “olho grego” é mais comum na Grécia e em outras regiões.
O amuleto, independentemente do nome, tem origem em culturas do Oriente Médio, como Turquia, Grécia e outras regiões, e é usado para proteção.
Assim sendo, o Olho Grego pode ser presente de turco, bem como o Olho Turco pode ser presente de grego, seja no presente ou no passado… o que, na verdade é presente, e sempre presente, para todos nós – gregos e troianos – é a Páscoa, no seu real sentido cristão – Memória e Renovação da Esperança de Paz na Vida Eterna no Reino de Deus¹
Feliz Páscoa! / Paskalya bayramınız kutlu olsun / Felices Pascuas!/ Bones Pasqües! / Happy Easter
¹https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/pascoa-entenda-quais-sao-as-origens-e-significados-da-data/

