A morte de Charlie Kirk, jovem de 31 anos e fundador da Turning Point USA, poderia ter sido apenas mais um trágico capítulo da violência política nos Estados Unidos. Mas tornou-se muito mais do que isso: virou espelho da barbárie em que mergulhamos, um sintoma da incapacidade de enxergar no outro, ainda que adversário, a condição mínima de ser humano.
Nos EUA, o crime foi seguido de manifestações de pesar de Donald Trump a Barack Obama. Até aí, o que se espera de líderes políticos. Mas a reação popular revelou algo mais profundo e preocupante. Houve quem chorasse a perda, mas também houve quem celebrasse. Comentários nas redes, de pessoas comuns e até de profissionais respeitados, chegaram a dizer que Kirk “mereceu” morrer. A polarização americana mostrou seus dentes: para uns, ele é mártir; para outros, inimigo derrotado.
No Brasil, como de costume, importamos as narrativas prontas. O bolsonarismo transformou o episódio em bandeira para reforçar sua tese de que conservadores são alvos da intolerância. A esquerda, em parte significativa, preferiu ironizar ou relativizar, alguns até celebrando. O mesmo padrão: a desumanização que permite ver na morte alheia motivo de festa.
Mas a verdade é que essa polarização não nasceu agora. Ela tem raízes históricas. No Brasil, o PT, desde o final dos anos 80 e 90, semeou uma visão de mundo baseada no “nós contra eles”, na demonização dos adversários, fossem eles partidos, empresários, religiosos ou até simples cidadãos que ousassem pensar diferente. No poder, em vez de arrefecer, esse discurso foi ampliado e normalizado. O resultado foi uma sociedade antes relativamente pacata sendo arrastada para trincheiras opostas, onde todos passaram a se sentir convocados: da dona de casa ao empresário, do artista ao pastor, todos fisgados pelo jogo da polarização.
Essa contaminação atingiu até instituições que deveriam se manter imunes, como o Judiciário. O STF, nos últimos anos, deu mostras de incoerência e contradição em decisões sem lastro jurídico sólido, agindo muitas vezes como o vento: soprando de um lado ou de outro, dependendo das circunstâncias políticas do momento. Não é comum — nem aceitável — que uma Suprema Corte se comporte assim, fragilizando a confiança da sociedade no equilíbrio das instituições.
E nesse cenário, Alexandre de Moraes emergiu. Um ministro que até então era uma figura secundária no mundo jurídico, tornou-se temido não por ser um guardião rigoroso da Constituição, mas por interpretá-la de acordo com interesses momentâneos. Suas decisões têm se mostrado convenientes para o PT e para forças políticas alinhadas à esquerda, em sua sanha persecutória contra quem pensa diferente. O mais grave: concentrou em si poderes que não deveria, com um STF acovardado, incapaz de impor limites a um único julgador que parece mandar mais que a própria corte. O resultado é trágico: o Supremo Tribunal Federal brasileiro, aos olhos do país e do mundo, deixou de ser corte de Justiça para se tornar corte de julgamentos políticos.
A situação chegou a um ponto tal que até mesmo opiniões como estas que escrevo correm risco de criminalização. É esse o retrato de um Brasil em que a divergência não só não é mais respeitada, mas é tratada como crime.
Some-se a isso o ambiente internacional e vemos que a polarização é uma praga global. A Europa, embora em menor escala, também apresenta casos de políticos e influenciadores que minimizaram ou debocharam do assassinato de Kirk.
O que assusta, no entanto, não é apenas a divergência política. Divergir é saudável. O que assusta é a naturalização da crueldade. Ver gente batendo palmas para a morte de alguém, desejando o mesmo à sua família, espalhando vídeos como se fossem memes. Esse é o ponto em que não se discutem mais ideias, mas se legitima o extermínio simbólico — e até literal — do adversário.
A morte de Charlie Kirk é um alerta mundial. A polarização não respeita fronteiras, e a corrosão da empatia ameaça todos nós. A pergunta que me faço, e deixo aqui para você, leitor: será que ainda há espaço para resgatar o respeito mútuo antes que a sociedade cruze o ponto de não retorno?














