PAPUDISKINA
A democracia começa quando deixamos o povo escolher
Daniel Oliveira da Paixão
Confesso: há certas coisas na política brasileira que me provocam uma coceira danada.
Uma delas é essa nossa crescente mania de resolver a eleição antes da eleição.
A urna ainda está guardada. A campanha mal começou. O eleitor sequer teve tempo de ouvir todos os candidatos — mas, em Brasília, às vezes parece que já tem gente fazendo a ata da reunião em que o povo ainda nem foi convidado.
E isso deveria incomodar qualquer democrata.
Não porque eu goste deste ou daquele candidato. Aliás, esse é justamente o ponto.
Foi inventada para que pudéssemos escolher.
Nesta terça-feira, 1º de setembro, o ministro Dias Toffoli recuou de uma decisão que havia imposto severas restrições à campanha presidencial de Renan Santos, do Missão.
Renan havia sido impedido de participar de parte de sua propaganda digital, de debates e entrevistas e sofrera restrições relacionadas aos recursos eleitorais, em razão de uma discussão sobre os perfis de redes sociais informados à Justiça Eleitoral.
Depois da regularização, as restrições foram revistas.
Ainda bem.
E digo isso independentemente de gostar ou não de Renan Santos.
Porque, quando um candidato é retirado do debate por uma questão que pode ser corrigida e juridicamente solucionada, não é apenas o candidato que perde espaço.
O eleitor perde uma opção.
E aí chegamos a Pablo Marçal.
Marçal também está praticamente do lado de fora do campo.
Em decisão de 20 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral determinou restrições à sua campanha, incluindo a utilização de recursos públicos, propaganda eleitoral gratuita e participação em debates, enquanto não houver decisão definitiva sobre seu registro.
A discussão envolve questões jurídicas relacionadas a sua condenação eleitoral e à filiação partidária.
Tudo isso precisa ser analisado pela Justiça.
É para isso que ela existe.
É uma pergunta incômoda.
E deveria continuar sendo.
Marçal teve rompantes?
Teve.
Exagerou?
Na minha opinião, várias vezes.
Cometeu erros?
Que responda por eles.
Se infringiu a lei, que a lei seja aplicada.
Sem medo. Sem privilégios. Sem jeitinho.
Mas uma coisa é responsabilizar alguém por aquilo que fez.
Outra, muito diferente, é impedir antecipadamente que milhões de brasileiros possam dizer, na urna, o que pensam sobre esse alguém.
E aqui faço uma confissão que talvez irrite alguns amigos:
Na verdade, não é meu candidato, a não ser que seja ele contra quem eu goste menos no segundo turno.
Mas isso é absolutamente irrelevante.
Porque eu não preciso querer votar em Marçal para defender o direito de quem quer votar nele.
Essa distinção parece ter desaparecido do debate brasileiro.
Hoje, se você defende o direito de determinado candidato participar da eleição, imediatamente alguém pergunta:
“Você vai votar nele?”
Não.
“Então por que está defendendo?”
Porque democracia não é clube de fãs.
É o sistema que garante que até o sujeito que nos irrita possa entrar na sala.
É o sujeito que fala bobagem. Mas todos falam besteiras arrepiantes quando estão no poder, como Lula e Bolsonaro. Eu nem saberia quem disse mais coisas absurdas.
O juiz da eleição deveria ser, tanto quanto possível, o eleitor.
E aqui não estou defendendo a inexistência da Justiça Eleitoral. Muito pelo contrário.
Precisamos de Justiça Eleitoral forte.
Precisamos de regras.
Precisamos de fiscalização.
Precisamos de punição quando as regras são violadas.
O que não podemos transformar em normalidade é a ideia de que, toda vez que uma candidatura se torna incômoda, podemos encontrar um caminho jurídico para tirá-la da frente antes que o eleitor tenha a oportunidade de julgá-la. Não creio que todo esse rigor contra Pablo Marçal teria ocorrido se ele estivesse com menos de 1% nas pesquisas na eleição para prefeito de São Paulo em 2024.
Eu preferiria um sistema em que, sempre que juridicamente possível e inexistindo uma situação absolutamente incontornável, o candidato pudesse disputar e as questões mais controvertidas fossem definitivamente resolvidas depois do voto.
Sim.
Depois do voto.
E não porque a Justiça deva se curvar ao eleitor.
Mas porque o eleitor também é parte da democracia.
Imagine o cenário.
O candidato disputa.
O povo vota.
Os votos são contados.
E então sabemos se ele recebeu 1%, 10%, 30% ou a maioria.
A partir daí, a Justiça decide as consequências jurídicas cabíveis, com o resultado eleitoral sobre a mesa.
É diferente.
E muito.
Claro que existem inelegibilidades previstas em lei que precisam produzir efeitos antes da eleição. Não sou ingênuo a ponto de defender o contrário.
A questão é outra.
É saber até onde podem ir determinadas medidas cautelares.
É discutir o limite entre
proteger a eleição
e
interferir na escolha
.
Porque existe uma diferença enorme entre impedir uma fraude eleitoral e impedir que o eleitor escolha.
E deveríamos ter arrepios quando a segunda hipótese começa a se tornar banal.
Democracia sob alerta
A urna pode continuar. A escolha, não.
O Marçal abusou nas redes, monitore e o notifique para não usar certas frases ou práticas. Mas não o tire da disputa. Não o retire dos debates e sabatinas.
A história já mostrou algumas vezes como democracias podem se transformar em coisas bastante estranhas.
O detalhe assustador é que os regimes autoritários modernos nem sempre precisam acabar com as eleições.
Eles podem mantê-las.
Há discursos sobre democracia.
O problema aparece quando determinados candidatos começam a desaparecer da disputa.
Na Bielorrússia, opositores foram presos, exilados ou impedidos de participar de eleições enquanto candidatos tolerados pelo regime continuavam concorrendo.
Na Rússia, existe uma estrutura frequentemente descrita como “oposição sistêmica”, na qual determinados adversários são autorizados a participar, enquanto aqueles considerados realmente ameaçadores enfrentam obstáculos muito maiores.
Na Nicarágua, opositores de Daniel Ortega foram presos antes das eleições.
Na Venezuela, María Corina Machado venceu as primárias da oposição e depois foi impedida de disputar a eleição presidencial.
No Irã, candidatos passam por um filtro institucional antes mesmo de chegar ao eleitor.
Não estou dizendo que o Brasil seja Bielorrússia.
Não estou dizendo que sejamos Rússia.
Muito menos que já tenhamos atravessado essa fronteira.
Seria irresponsável afirmar isso.
Mas é justamente por ainda sermos uma democracia que devemos prestar atenção aos sinais.
Democracias não costumam morrer com uma placa na porta dizendo:
Elas podem se deteriorar aos poucos.
Uma restrição aqui.
Uma exceção ali.
Uma decisão extraordinária que vira precedente.
Um mecanismo criado para uma situação excepcional que passa a ser utilizado como rotina.
E, quando percebemos, continuamos tendo eleições — mas a lista de escolhas foi cuidadosamente filtrada.
A urna continua.
O que desapareceu foi a escolha.
E essa é a parte perigosa.
Porque toda restrição pode ser apresentada como necessária para proteger a democracia.
É sempre em nome de uma boa causa.
“É para proteger as instituições.”
“É para combater os extremismos.”
“É para defender a democracia.”
“É para evitar ameaças.”
Mas existe uma pergunta que nunca pode deixar de ser feita:
Essa pergunta vale para todos.
Inclusive para aqueles que ocupam os mais altos cargos da República.
E é por isso que também precisamos de transparência absoluta quando surgem questionamentos envolvendo autoridades, relações institucionais, interesses econômicos e pessoas investigadas.
Não se trata de condenar ninguém por suspeita.
Trata-se de exigir aquilo que uma democracia saudável deveria considerar banal:
explicações claras.
Quanto maior o poder, maior deve ser a transparência.
Quanto maior a autoridade, maior deve ser a responsabilidade de afastar qualquer sombra de dúvida.
Não quero saber quem vai ganhar
É por isso que comemorei a revisão da decisão no caso de Renan Santos.
Toffoli reconsiderou as restrições depois da regularização dos perfis e permitiu novamente a participação da candidatura em propaganda, debates e utilização dos recursos eleitorais.
Reconsiderar uma decisão não diminui um juiz.
Às vezes, faz exatamente o contrário.
Demonstra que ninguém está acima da possibilidade de reconhecer que uma decisão pode ser aperfeiçoada.
Agora, espero que o mesmo espírito de prudência prevaleça no caso de Pablo Marçal.
Ele pode perder.
Pode ter uma votação ridícula.
Pode surpreender.
Pode chegar ao segundo turno.
Pode até vencer.
Eu não sei.
Ainda bem que eu não sei.
Essa é a graça da democracia.
Ninguém deveria saber antecipadamente o que o eleitor fará.
Nem o candidato.
Nem o jornalista.
Nem o partido.
Nem o ministro.
Nem o tribunal.
Nem o governo.
Ninguém.
Quem deve decidir é o cidadão diante da urna.
E depois podemos discutir o resultado.
Podemos reclamar.
Podemos rir.
Podemos xingar a televisão.
Podemos escrever colunas indignadas.
Podemos dizer que o eleitor enlouqueceu.
Podemos dizer que o eleitor acertou.
Podemos até passar quatro anos dizendo:
“Eu avisei.”
Isso faz parte.
O que não podemos é decidir previamente que determinado grupo de brasileiros não terá o direito de descobrir, na urna, se a sua escolha tinha força suficiente para vencer.
Porque talvez a maior prova de que acreditamos na democracia seja justamente esta:
É fácil defender liberdade para os nossos.
Difícil é defendê-la para os outros.
E talvez seja exatamente aí que esteja a verdadeira prova.
A Coluna Papudiskina desta semana, portanto, é simples:
Menos medo da urna.
Mais confiança no eleitor.
Se alguém tiver contas jurídicas a prestar, que preste.
Se alguém tiver cometido ilegalidades, que responda.
Se alguém for inelegível, que a lei seja cumprida.
Mas, sempre que a própria lei permitir, deixemos o eleitor falar.
Porque eleição não existe para confirmar aquilo que as instituições já decidiram.
Existe justamente para descobrir aquilo que
o povo decidiu.
E talvez Brasília precise lembrar de uma coisa muito simples:
O povo tem o dever de decidir como de outras vezes. Eu penso que o povo tem decidido por pessoas erradas nos últimos anos. Eu não gostei, mas o vencedor nem sempre é quem eu quero e sim quem o povo quer.
Tem que ser assim. A vontade da maioria.

