O que as imagens produzidas há mais de um século podem revelar sobre a Rondônia de hoje? A pergunta guiou a programação da noite desta terça-feira (4), durante a 19ª edição do CINEAMAZÔNIA – Festival de Cinema Ambiental. Realizado no auditório da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), o encontro “(Contra)Arquivos Fílmicos de Rondônia” reuniu pesquisadores, estudantes, realizadores e interessados em cinema para uma viagem pela memória audiovisual da Amazônia. A atividade integrou a programação formativa do festival, que neste ano também promove exibições gratuitas em escolas públicas de Porto Velho, Candeias do Jamari e Itapuã do Oeste.
O debate marcou o encerramento do projeto de pesquisa “Imagens de Rondônia no Século XX: Mapeamento, História e Análise”, desenvolvido entre 2024 e 2026 com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Coordenado pelos pesquisadores Juliano Araújo, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), e Naara Fontinele, da Université de Picardie Jules Verne (França), o estudo mapeou e analisou filmes produzidos ao longo do século XX que registraram paisagens, povos e transformações do território que hoje corresponde ao estado de Rondônia.
Quando o cinema vira documento histórico
Ao longo da pesquisa, foram identificadas obras que atravessam diferentes períodos da história regional. Entre elas estão registros realizados por Edgar Roquette-Pinto em 1912, imagens captadas por Silvino Santos na década de 1920 e produções que documentaram a ocupação da Amazônia nas décadas de 1970 e 1980.
Segundo Juliano Araújo, parte significativa desse patrimônio audiovisual permanece pouco conhecida do público rondoniense. “Quando começamos a pesquisa, percebemos que existiam muitas imagens produzidas sobre Rondônia, mas que estavam dispersas em arquivos, cinematecas e instituições de diferentes lugares. O desafio foi reunir esse material e compreender o que esses filmes dizem sobre a formação do estado e sobre a própria história da Amazônia.”
O pesquisador destacou que muitas dessas obras vão além do registro documental. “São filmes que mostram paisagens, modos de vida e processos históricos que marcaram profundamente a região. Eles ajudam a entender como Rondônia foi vista em diferentes momentos e também como determinadas narrativas sobre a Amazônia foram construídas ao longo do tempo.”
Memória, identidade e novas leituras
Para Naara Fontinele, revisitar essas imagens é também uma forma de ampliar o debate sobre identidade e pertencimento. “Esses filmes não falam apenas do passado. Eles dialogam diretamente com questões que continuam presentes na Amazônia contemporânea. Quando revisitamos essas imagens, podemos enxergar novas camadas de significado e produzir outras interpretações sobre a memória de Rondônia.”
A pesquisadora ressaltou ainda a importância da preservação dos acervos audiovisuais. “Preservar filmes é preservar histórias, experiências e formas de ver o mundo. Sem esses registros, parte importante da nossa memória coletiva corre o risco de desaparecer.”
A atividade foi seguida pela exibição de trechos de obras analisadas pela pesquisa, incluindo o documentário Rondônia: Viagem à Terra Prometida, dirigido por Sílvio Tendler em 1986. As imagens despertaram curiosidade entre os participantes ao revelar diferentes retratos da região ao longo do século passado.
Para o diretor do CINEAMAZÔNIA, José Jurandir da Costa, promover esse tipo de encontro amplia o papel do festival para além das exibições cinematográficas. “O CINEAMAZÔNIA nasceu para discutir meio ambiente por meio do cinema, mas também para preservar memórias e estimular reflexões. Quando reunimos pesquisadores, estudantes e realizadores para olhar essas imagens históricas, estamos ajudando a construir uma compreensão mais profunda sobre quem somos e sobre a Amazônia que queremos para o futuro.”
A 19ª edição do CINEAMAZÔNIA – Festival de Cinema Ambiental é realizada com recursos da Lei Paulo Gustavo, do Fundo Estadual de Desenvolvimento da Cultura (FEDEC), por meio da Secretaria de Estado da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer (SEJUCEL), do Estado de Rondônia. Apoio: Cinemateca Brasileira; Sociedade Amigos da Cinemateca; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); LUCA – Laboratório Universitário de Cinema e Audiovisual; Programa de Pós-Graduação em Comunicação; Pró-Reitoria de Cultura, Extensão e Assuntos Estudantis da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).
Realização: Acapulco Filmes.
(João Alves)















