DAQUI A CEM DIAS

Daqui a cem dias irei,
Sessenta anos fazer;
O tempo passou ligeiro,
Sem pedir pra me dizer;
Quando olhei para o espelho,
Vi a vida envelhecer.
Estou ficando mais velho,
Já não nego a realidade;
O corpo fala mais cedo,
Com os sinais da idade;
Mas dentro do peito ainda
Mora a antiga mocidade.
Minhas vistas, já cansadas,
Não alcançam o horizonte;
O longe ficou mais turvo,
O perto virou uma ponte;
Mas ainda vejo lembranças
Correndo feito uma fonte.
As estrelas lá no céu
Já não brilham como antes;
Ou será que meus olhos
Ficaram menos brilhantes?
Mesmo assim guardo no peito
Meus sonhos mais importantes.
Dizem que é melhor idade,
Mas fico na interrogação;
Quando o joelho reclama,
E pesa mais o coração;
Mas quem conserva a esperança
Não se entrega à solidão.
Melhor idade talvez seja
Saber viver com cuidado;
Ter menos pressa na vida,
Ter mais tempo aproveitado;
Chorar sem sentir vergonha
E sorrir pelo passado.
Sessenta anos não são fim;
São lembranças da estrada
É livro de muitas páginas,
Com lágrima e gargalhada;
É ver que Deus sustentou
Cada curva da jornada.
A juventude foi embora,
Mas deixou sua lição;
Ensinou que todo sonho
Precisa de direção;
E que a maior riqueza
É guardar limpo o coração.
Se a vista perde o alcance,
A fé enxerga bem mais;
Se as estrelas brilham pouco,
Deus acende outros sinais;
E quem caminha com Cristo
Nunca envelhece demais.
Daqui a cem dias chego
Aos sessenta, com verdade;
Melhor idade, não sei
Mas sei, com sinceridade:
Velho é quem perde a esperança,
Não quem ganha maturidade.
Moiseis Oliveira da Paixão













