Rondônia vive uma escalada silenciosa e perigosa da violência. O problema não está apenas nos números, mas na naturalização do medo. Estamos nos acostumando a conviver com estatísticas absurdas, como se fossem parte inevitável da vida. Não são.
Hoje, nosso estado registra uma média de 30,3 homicídios por 100 mil habitantes. São números incompatíveis com qualquer projeto sério de desenvolvimento social.
Mas a violência não aparece apenas nos relatórios. Ela invade as ruas, os bairros e a rotina das famílias. A população já não consegue mais caminhar com tranquilidade. Em Porto Velho, por exemplo, mulheres evitam usar celular na rua por medo de assaltos. Pais têm receio de deixar os filhos brincarem na calçada. Comerciantes fecham mais cedo. O medo passou a organizar a vida das pessoas.
Como ex-delegado da Polícia Civil, posso afirmar com tranquilidade: segurança pública não se faz apenas com discurso. Ela exige planejamento, inteligência, presença do Estado e, principalmente, prioridade política.
Hoje, infelizmente, vemos o contrário.
As facções criminosas avançam enquanto o poder público recua. Os roubos deixaram de atingir apenas celulares ou carteiras. Hoje levam ferramentas de trabalho, bicicletas, motos, instrumentos musicais e até a sensação de dignidade das pessoas.
O crime organizado se fortalece porque encontra espaço.
A ausência do Estado em áreas sensíveis abriu caminho para o domínio territorial de facções. Presídios superlotados, falta de estrutura policial, deficiência no policiamento preventivo e a ausência de investimentos consistentes criaram um ambiente fértil para a expansão da criminalidade.
Enquanto isso, a população paga a conta.
Não se combate o crime apenas reagindo depois que ele acontece. Segurança pública exige prevenção, inteligência policial, integração entre forças de segurança, investimento em tecnologia e valorização dos profissionais que estão na linha de frente.
Também exige coragem para enfrentar um problema que muitos fingem não ver.
As facções não crescem por acaso. Elas crescem onde o Estado falha.
Rondônia precisa recuperar o controle de suas ruas, de seus bairros e de suas fronteiras. Nosso estado ocupa posição estratégica na rota do tráfico de drogas e armas. Ignorar isso é fechar os olhos para a realidade.
Eu vivi isso diariamente durante décadas dentro da Polícia Civil.
Vi famílias destruídas pelo tráfico. Vi jovens sendo cooptados pelo crime. Vi policiais trabalhando no limite da exaustão para tentar proteger uma população cada vez mais vulnerável.
É por isso que acredito que segurança pública precisa voltar ao centro do debate político.
Não podemos aceitar que o cidadão de bem viva preso dentro de casa enquanto o criminoso circula livremente. Não podemos aceitar que mães enterrem filhos enquanto autoridades discutem o problema apenas em épocas eleitorais.
Chega de improviso.
Chega de políticas superficiais.
Chega de abandonar quem trabalha, paga impostos e quer apenas viver em paz.
Rondônia precisa de liderança firme, planejamento e coragem para enfrentar o crime organizado sem maquiagem e sem discurso vazio.
Porque quando o tráfico avança, não é apenas a criminalidade que cresce. É o medo. É a insegurança. É a sensação de abandono.
E um estado que perde o controle da segurança perde, aos poucos, a liberdade de sua população.















