OPINIÃO – Gilmar Mendes e a arte de enxergar excessos apenas onde convém

Gilmar Mendes critica abusos da Lava Jato com fervor mas ignora métodos questionáveis no inquérito do golpe revelando seletividade que compromete sua credibilidade

Ministro critica abusos da Lava Jato com fervor, mas passa pano nos métodos do inquérito do golpe — e a desculpa é que acompanhou tudo “pelos jornais”

 

Existe um tipo de cegueira que só acomete quem não quer ver. E ela costuma ser bastante seletiva.

O ministro Gilmar Mendes, do , foi ao programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (22), e fez o que sabe fazer de melhor: criticou a . Nenhuma novidade. Gilmar construiu boa parte de sua reputação recente como o maior algoz da operação que, com todos os seus erros, expôs o maior esquema de corrupção da história do país.

A novidade veio na pergunta — não na resposta.

Mas não provocou. Não em Gilmar.

Gilmar desconversou. Disse que participou dos julgamentos da Lava Jato e que agora acompanha o caso do Banco Master, mas que a questão do golpe ficou na Primeira Turma. Ele apenas “acompanhou pelos jornais”. E completou: “Não tenho a visão de que aqui tenha havido abusos na investigação.”

Agora compare.

Quando os métodos eram aplicados contra aliados do PT, Gilmar via  em cada vírgula. Cada condução coercitiva era um atentado à Constituição. Cada delação premiada era um instrumento de  institucional. O ministro dedicou votos, entrevistas e manifestações públicas a denunciar o que chamava de “estado policial”.

Mas quando os mesmos métodos — ou piores — são usados contra adversários do governo atual, o ministro descobre uma súbita modéstia intelectual. Não acompanhou de perto. Estava em outra turma. Só leu nos jornais.

A pergunta que ninguém faz é simples: se o problema sempre foi o método — a prisão para forçar delação, as versões mutantes, a pressão institucional sobre o réu —, por que o método só incomoda quando as vítimas são de um lado do espectro político?

Gilmar Mendes é, sem dúvida, um dos ministros mais inteligentes da história do STF. E justamente por isso, sua seletividade é mais grave. Não se trata de ignorância. Trata-se de escolha. Uma escolha sobre quais abusos merecem indignação e quais merecem silêncio cúmplice.

O guardião da Constituição que só guarda quando lhe convém não é um guardião. É um jogador.

E o jogo, neste caso, tem um preço: a credibilidade de quem deveria ser a última trincheira contra o arbítrio — venha ele de onde vier.

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