Gilmar Mendes critica abusos da Lava Jato com fervor mas ignora métodos questionáveis no inquérito do golpe revelando seletividade que compromete sua credibilidade

Ministro Gilmar Mendes Foto: Reprodução/YouTube Roda Viva
Ministro critica abusos da Lava Jato com fervor, mas passa pano nos métodos do inquérito do golpe — e a desculpa é que acompanhou tudo “pelos jornais”
Existe um tipo de cegueira que só acomete quem não quer ver. E ela costuma ser bastante seletiva.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, foi ao programa Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (22), e fez o que sabe fazer de melhor: criticou a Lava Jato. Nenhuma novidade. Gilmar construiu boa parte de sua reputação recente como o maior algoz da operação que, com todos os seus erros, expôs o maior esquema de corrupção da história do país.
A novidade veio na pergunta — não na resposta.
Mas não provocou. Não em Gilmar.
Gilmar desconversou. Disse que participou dos julgamentos da Lava Jato e que agora acompanha o caso do Banco Master, mas que a questão do golpe ficou na Primeira Turma. Ele apenas “acompanhou pelos jornais”. E completou: “Não tenho a visão de que aqui tenha havido abusos na investigação.”
Agora compare.
Mas quando os mesmos métodos — ou piores — são usados contra adversários do governo atual, o ministro descobre uma súbita modéstia intelectual. Não acompanhou de perto. Estava em outra turma. Só leu nos jornais.
A pergunta que ninguém faz é simples: se o problema sempre foi o método — a prisão para forçar delação, as versões mutantes, a pressão institucional sobre o réu —, por que o método só incomoda quando as vítimas são de um lado do espectro político?
Gilmar Mendes é, sem dúvida, um dos ministros mais inteligentes da história do STF. E justamente por isso, sua seletividade é mais grave. Não se trata de ignorância. Trata-se de escolha. Uma escolha sobre quais abusos merecem indignação e quais merecem silêncio cúmplice.
O guardião da Constituição que só guarda quando lhe convém não é um guardião. É um jogador.
E o jogo, neste caso, tem um preço: a credibilidade de quem deveria ser a última trincheira contra o arbítrio — venha ele de onde vier.













