Povo Paiter Suruí cura gripe e dor de cabeça com cipó e plantas preservados na terra indígena

 

Das 36 espécies de plantas medicinais que estudou e vem utilizando com famílias indígenas, o agente de saúde Luis Mopilabatem Suruí, 46 anos, conhece e fala da eficácia da maioria. São remédios experimentados desde antes da pandemia da covid-19 e, conforme ele frisa, “com respeito à natureza e muita fé pelos indígenas”. Publicamos hoje a primeira de uma série de reportagens mostrando a realidade desse povo.

O cipó maratapó, a orsaya, o pagaley e o açaí outrora tão devastado junto com árvores de mogno serradas, tombadas e levadas por madeireiros, rendem pesquisas. “A Universidade, a Fiocruz, quem mais se interessar, podem estudar aqui com a gente o valor dessa farmácia natural”, observa o diretor do Centro Cultural Wagô Pakob, Gasodah Suruí.

Wagô Pakob em tupi mondé pode ser traduzido por “força da natureza”.

Na segunda-feira, dia 27, com os jornalistas Adair Perin e Giliane Perin (Tribuna Popular, de Cacoal), conheci a extração de algumas plantas próximas ao Centro Cultural criado em 2016 e situado no final da linha vicinal 9, no Km 45, a um quilômetro da aldeia Paiter.

De algumas se extraem as folhas, de outras raspa-se o caule, numa operação que dura menos de dez minutos.

O cheiro forte das folhas maceradas por Luis sobre a palmeira e a raspagem do caule impressionam.

Gasodah acompanha os testes de cada um de nós. Pela primeira vez, nos limitamos a uma experiência: cheirar a substância, que pode causar breve ardência na área nasal.

Ele e Luis explicam que a raspa ou a inalação do chá dessas plantas têm múltiplas utilidades. Conforme relatam, a orsaya teria poderes anti-inflamatórios, curando gripes e resfriados, diarreia, dores de cabeça e do restante do corpo. Com elas, a pessoa também pode fazer o conhecido e antigo banho de assento.

“O pagaley é uma vitamina contra anemia”, conta Luis. Efeitos das aplicações dessas plantas serão relatados com detalhes mais à frente, nos encontros científicos que eles pretendem fazer.

Apontando os açaizeiros nativos cultivados no entorno do Centro Cultural, Gasodah lembra que eles foram tão cobiçados quanto o mogno, madeira nobre encontrada em grandes extensões do território entre o município de Juína e a antiga Vila Cacoal e Espigão do Oeste ainda na década de 1960, quando a “febre das derrubadas” começava a se intensificar.

Rico em prolifenóis, o açaí tem efeitos antioxidante e anti-inflamatório conhecidos, e por ser rico em gorduras monoinsaturadas [ômega-9], ajuda a equilibrar os níveis de colesterol circulantes, prevenindo a aterosclerose e a formação de coágulos. Também relaxa os vasos e melhora a circulação sanguínea.

Cinco décadas atrás, caminhões toreiros transportavam para os pátios das serrarias, algumas delas distantes mais de 500 quilômetros da região do Aripuanã, milhares de metros cúbicos de angelim, castanheira, garapeira, guaritá, mogno, peroba, entre outras espécies. As dependências do Centro Cultural foram propositalmente construídas no meio de uma estrada antiga pode onde transitavam os caminhões. “Bloqueamos eles”, diz Gasodah Suruí.

 

DIA DE VIVÊNCIA 

O Centro Cultural é apoiado pelo Programa Iniciativa Comunidades e Governança Territorial da organização Forest Trends; Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (AGIR); Associação Kanindé Etnoambiental; Fundação Nacional do Índio (Funai) e Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Gasodah, Luiz Suruí e a AGIR estão organizando um Dia de Vivência Sobre Plantas, Artesanato e Tradições, do qual poderão participar pesquisadores, médicos, universitários, jornalistas e outras pessoas que se interessarem pelas descobertas desse povo.

O encontro servirá para reaproximar saberes acadêmicos e o conhecimento dos pajés. Hoje Rondônia tem diversões anciãos, mas poucos pajés como eram ouvidos e respeitados décadas atrás. Respeitado, o pajé Pepêra Suruí [presumivelmente com mais de 70 anos] poderá colaborar, relatando um pouco a maneira como sobreviveu à pandemia. Quando a doença começou a fazer vítimas em Cacoal, matando mais de trezentas pessoas, Pepêra permaneceu na maloca bebendo seus próprios remédios. Ele ainda não revelou quais foram.

Desde 2020, dez suruís morreram em consequência da covid-19. “Não houve controle total”, explica Gasodah ao analisar estatísticas a respeito do município e no Estado de Rondônia. “Certamente, indígenas que moram nas cidades não fazem parte desse cômputo”, diz. Ele e o agente de saúde Luiz acreditam convictos que alguns sobreviventes indígenas tenham adquirido imunidade “graças aos remédios da floresta.”

“Por trás de uma simples árvore há muitas histórias, os leitos dos rios [cortam a Terra Indígena os rios Branco, Guapó e Quente] também têm muito a nos dizer”, diz Gasodah.

Inspirado por seus estudos e firme no resgate da história Paiter, ele reforça: “Na vivência que programamos, os anciãos serão ouvidos para transmitir ao mundo as boas informações disponíveis”.

Nômades até o início dos anos 1970, os Paiter Suruí se mudaram por etapas do noroeste mato-grossense. Segundo eles próprios relatam, três anos após o contato oficial feito em 1969 pelo falecido sertanista Francisco Meireles, homens, mulheres e crianças foram atacados por violenta epidemia de sarampo.

Chico, como era conhecido, é pai de Apoena Meireles, outro lendário sertanista também falecido.

A exemplo de outras regiões de Rondônia, onde outros povos também enfrentaram sarampo, tuberculose, pneumonia e malária, os Paiter assistiram as aldeias sucumbirem. Menos de trezentas pessoas sobreviveram nesse tempo.

“Para ficar perto da Funai, onde recebiam aendimento médico e vacinas, os mais antigos foram viver no Nambekó abada ki bá [o lugar onde foram pendurados os facões no contato]; nesse lugar, que ficava na linha 12, a expedição da Funai havia se instalado, e todos foram para lá em busca de socorro”, lembra Gasodah.

Atualmente, a população Paiter Suruí é estimada em 1.900 pessoas. A TI Sete de Setembro, uma das 27 existentes nos limites dos aproximadamente 248 mil hectares, começa a sentir outra vez o vaivém de pessoas e, desta vez, não estão ali para roubar madeira, nem peixe, mas para tomar conhecimento do rico universo do mundo tradicional que já sentiu diversas perdas culturais, sociais e ambientais.

Desde o ano passado, 350 pessoas brasileiras e estrangeiras – professores, donos de escolas de ensino fundamental e médio, universidades e outros grupos – andaram pelas trilhas na floresta, assistiram manifestações culturais, cantos e contação de histórias. Receberam pinturas com tinta negra de jenipapo e entenderam que a paz entre os povos é o caminho para o fortalecimento socioambiental.

“Estamos resgatando tudo isso para as novas gerações, adaptando etnoconhecimentos e valorizando práticas culturais ass e associadas à conservação e preservação”, acrescenta Gasodah.

(Reportagem: MONTEZUMA CRUZ / Colaborou nas fotos: Oiapangawaron Suruí)

 

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